quarta-feira, 17 de abril de 2013

O EVANGELHO DE FELIPE

[Tradução efetuada cotejando os textos em inglês de Wesley W. Isenberg, em THE NAG HAMMADI LIBRARY, James M. Robinson (ed.) (Harper San Francisco, 1994),  de Vladimir Antonov, em THE GOSPEL OF PHILIP, de Paterson Brown, em THE GOSPEL OF PHILIP e a tradução para o português do texto de Jean-Yves Leloup, em  O EVANGELHO DE FELIPE (Editora Vozes)].
por, Raul Branco

          
O EVANGELHO DE FELIPE é um dos textos encontrados na coleção geralmente referida como a BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI. O nome vem da localidade no Alto Egito onde foi encontrada uma coleção de códices em 1945.


O Evangelho de Felipe provavelmente foi escrito originalmente em grego. Os historiadores disputam a data de sua “publicação”, que variam do primeiro ao terceiro século. O exemplar encontrado entre os textos da biblioteca de Nag Hammadi é uma tradução para o copto, a língua do alto Egito no início de nossa era, que provavelmente foi efetuada no quarto século.

Ao contrário dos evangelhos canônicos, o Evangelho de Felipe não contém uma narrativa sistemática da vida e ministério de Jesus em ordem cronológica. Ele segue a linha da tradição oral de relatar, independente do contexto histórico, ensinamentos atribuídos a Jesus e interpretações de aforismos e práticas espirituais.
 
Essa prática foi seguida por vários outros textos apócrifos, como por exemplo, o Evangelho de Tomé e o assim chamado Evangelho “Q” (inicial de Quelle, alemão para ‘Fonte’, que é tido como a fonte das logia do Senhor apresentadas nos evangelhos segundo Mateus e Lucas).


Dentre os dezessete ditados de Jesus em Felipe, nove são encontrados também, com algumas variações, nos evangelhos canônicos e oito são originais. A linguagem destes ditados é geralmente breve e enigmática. Sua interpretação requer o conhecimento da simbologia usada pelos grupos gnósticos daquela época. Existem também umas poucas histórias sobre Jesus semelhantes às encontradas nos mais antigos evangelhos apócrifos. A linguagem é com freqüência paradoxal, lembrando os koans zen, provavelmente para levar o leitor a deixar de lado a lógica da mente e valer-se da intuição para seu entendimento.

O que torna o Evangelho de Felipe especialmente importante são as inúmeras passagens sobre os sacramentos que teriam sido instituídos por Jesus em sua forma original, antes de terem sido adaptados e aumentados para sete, pela Igreja, para uso geral dos fiéis. Segundo a tradição esotérica, aqueles sacramentos eram ministrados somente aos discípulos do círculo interno, “os poucos”, em circunstâncias que lembram os rituais dos Mistérios Maiores da antigüidade. Assim, as referências aos cinco sacramentos: o batismo, a crisma, a eucaristia, a redenção e a câmara nupcial, são feitas numa linguagem ainda mais velada do que a utilizada em outras partes do texto. Apesar do caráter oculto dessas passagens, elas oferecem ao estudioso uma clara indicação de seus paralelos com as cinco grandes Iniciações e as cinco etapas da vida dos místicos.

  


Texto do Evangelho de Felipe

 

1. Um hebreu faz outro hebreu convertido, e tal pessoa chama-se prosélito. Mas, um convertido nem sempre faz outro prosélito. Aqueles que vieram da verdade são como eram inicialmente. E eles geram outros homens da verdade. Para esses outros é suficiente tornar-se o que se é.

2. O escravo só aspira ser livre e não ambiciona adquirir os bens de seu senhor. Porém o filho não é somente um filho, mas um herdeiro da herança do pai.

3. Os que herdam dos mortos estão eles mesmos mortos e herdam os mortos. Os que herdam daquele que é vivo estão vivos e são herdeiros tanto do imperecível como do morto. Os mortos não são herdeiros de nada. Pois como pode aquele que está morto herdar? Se aquele que morreu herdasse do que vive ele não morreria.

4. O pagão não morre, pois ele nunca chegou a viver, portanto não tem sentido falar sobre sua morte. Mas aquele que aceitou a verdade encontrou a vida e corre o perigo de morrer, pois está vivo.

5. A vinda de Cristo gera um mundo novo com ordem e beleza, e afasta a morte.

6. Quando éramos hebreus, éramos órfãos, conhecíamos apenas nossa mãe, mas, quando nos tornamos cristãos descobrimos nosso pai e nossa mãe.

7. Quem semeia no inverno colhe no verão. O inverno é este mundo, o verão é o outro reino eterno (eon). Semeemos no mundo para que possamos colher no verão. Por essa razão não deveríamos orar a Deus no inverno, porque o inverno é seguido pelo verão. Porém, se algum homem colher no inverno ele, na verdade, não estará colhendo, mas simplesmente arrancando as plantinhas. Não só no inverno ele ficará sem colheita, mas também no outro sábado seu campo será improdutivo.

8. Cristo veio para resgatar alguns, salvar outros e para redimir ainda outros. Ele resgatou os alienados trazendo-os para si. E colocou os seus separados, aqueles que havia resgatado por sua vontade. Não foi apenas no momento de sua manifestação que ele ofertou sua vida, mas desde o começo do mundo sua vida é ofertada. Ele se encarnou para ofertá-la, quando bem quis. Ela havia caído em mãos de ladrões tendo sido feita prisioneira. Mas ele a libertou, resgatando tanto as pessoas boas do mundo como as más.

9. Luz e treva, vida e morte, direita e esquerda são irmãos e irmãs entre si. São inseparáveis. Por isto, nem os bons são bons, nem os maus são maus, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Por isso tudo se dissolverá em sua origem primordial. Mas os que estão exaltados acima do mundo são indissolúveis, são eternos.

10. Os nomes que usamos para as coisas do mundo são muito enganadores, pois desviam nossos pensamentos do que é real (eterno) para o que é transitório. Assim, quem ouve a palavra “Deus” não percebe o que é Real, mas sim uma imagem ou ilusão. O mesmo ocorre com “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo”, “Vida”, “Luz”, “Ressurreição”, “Igreja”. As pessoas não percebem o real, mas sim o seu oposto, (a menos) que tenham experimentado o real. Os (nomes que ouvimos) estão no mundo para nos confundir. Se estivessem no reino eterno (eon), não seriam jamais usados como nomes neste mundo. Tampouco seriam colocados entre as coisas do mundo. Essas noções têm um propósito no reino eterno.

11. Só há um nome que não se pronuncia no mundo, o nome que o Pai deu ao Filho e que está acima de todas as coisas: esse nome é o Pai. Pois o Filho não se tornaria um com o Pai, a não ser que usasse o nome do Pai. Aqueles que têm esse nome conhecem-no em pensamento, mas não o pronunciam. Mas, aqueles que não têm este nome não O conhecem. A verdade fez com que os nomes surgissem no mundo por nossa causa, pois não é possível aprendê-la sem esses nomes. A verdade é uma única coisa, mas se apresenta como muitas coisas por nossa causa, para nos ensinar com amor sobre essa coisa una.

12. Os regentes (arcontes) queriam enganar o homem, porque viram que ele tinha parentesco com o que é verdadeiramente bom. Eles tomaram o nome do que era bom e deram-no ao que não era bom, para que, por meio dos nomes, pudessem enganá-lo e vinculá-lo ao que não é bom. E, depois, que favor os nomes lhes prestam! São tirados do que não é bom e colocados no que é bom. Eles sabiam essas coisas, porque queriam apoderar-se do homem livre e torná-lo seu escravo para sempre.

13. Alguns regentes concedem poderes ao homem, não querendo que ele seja (salvo), para que eles possam mantê-lo sob seu poder. Porque se o homem for (salvo, não haverá) nenhum sacrifício ( ... ) e não serão oferecidos animais aos arcontes. Na verdade, eram aos animais que eles ofereciam sacrifícios. Eles eram realmente oferecidos vivos, mas quando os ofertavam eles morriam. Quanto ao homem, ofereceram-no morto a Deus, e ele viveu.

14. Antes da vinda do Cristo não havia pão no mundo. Também no Paraíso, o lugar onde estava Adão, havia muitas árvores para alimentar os animais, mas não havia trigo para sustentar o homem. O homem costumava alimentar-se como os animais, mas quando veio Cristo, o homem perfeito, ele trouxe pão dos céus para que o homem pudesse ser nutrido com alimento de homem.

15. Os regentes pensavam que era por seu próprio poder e vontade que faziam o que estavam fazendo. Mas o Espírito Santo, em segredo, estava realizando tudo por meio deles, segundo sua vontade. A Verdade, que existia desde o princípio, está semeada por toda parte. E muitos a vêem sendo semeada, mas são poucos os que a vêem sendo colhida.

16. Alguns dizem que Maria concebeu por obra do Espírito Santo. Mas eles estão enganados. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher alguma vez concebeu por obra de outra mulher? Maria é a virgem que nenhum poder conspurcou. Ela é um grande anátema para os hebreus, os apóstolos e seus seguidores. Essa virgem que nenhum poder violou ( ... ) os poderes violaram a si mesmos. O Senhor não (teria) dito “Meu (Pai que está nos) céus” (Mt 16:17) se não tivesse outro pai. Neste caso, teria dito simplesmente “(Meu Pai)”.

17. O Senhor disse aos discípulos: entrem na casa do Pai. Mas não levem nada para a casa do Pai nem retirem (nada) de lá.

18. “Jesus” é um nome oculto, “Cristo” é um nome revelado (título). Por esta razão, “Jesus” não está particularmente ligado a nenhuma língua; seu nome é sempre “Jesus”. “Cristo”, porém, em siríaco é “Messias” e em grego, “Cristo”. Certamente todas as outras línguas referem-se a ele com suas próprias palavras. “O nazareno” é aquele que revela o que está oculto.

19. Cristo tem tudo em si mesmo, o homem, o anjo, o mistério, o Pai.

20. Os que dizem que o Senhor morreu primeiro e (então) ressuscitou estão enganados, pois ele primeiro ressuscitou e (então) morreu. Se alguém alcança primeiro a ressurreição ele não morrerá. Assim como Deus vive, ele viverá sempre.

21. Ninguém esconde um objeto de grande valor num lugar de destaque, mas muitas vezes incontáveis milhares de objetos valiosos são colocados em algo de valor negligível. Assim é com a alma: uma coisa preciosa que se encontra num corpo humilde.

22. Há os que têm medo de ressurgir nus. Por isto querem ressuscitar na carne. Não sabem que são aqueles que vestem a (carne) que estão nus. Aqueles que são levados a despir-se é que não estão nus. “Nem a carne (nem o sangue) herdarão o Reino de (Deus).” (1 Co 15:50). O que é que não herdará? Aquilo que usamos como vestimenta. Mas então o que herdará? É aquilo que pertence a Jesus e a seu sangue. Por isto Ele disse: “Aquele que não come a minha carne e bebe o meu sangue não tem vida em si” (Jo 6:53). O que quer dizer isto? Sua carne é a Palavra (o Logos), e seu sangue é o Espírito. Quem recebe o Logos e o Espírito tem alimento, bebida e vestimenta. Discordo dos que dizem que (a carne) não ressuscitará, pois uns e outros estão errados. Tu dizes que a carne não ressurgirá. Dize-me, então, o que ressuscitará para que possamos te aplaudir. Falas do Espírito na carne, que é também esta Luz na carne. (Porém) isso também é matéria que se encontra na carne, pois tudo o que disseres, não estará fora da carne. É preciso ressurgir nesta carne, já que tudo existe nela.

23. Neste mundo, aqueles que usam roupas valem mais do que as vestes. No Reino dos Céus, as vestes valem mais do que os que as usam.

24. É por meio da água e do fogo que tudo é purificado: o visível pelo visível, o oculto pelo oculto. Algumas coisas são ocultas por meio das visíveis. Existe água na água e fogo na crisma.

25. Jesus surpreendeu-os, porque Ele não apareceu como era (verdadeiramente), mas da maneira como (seriam) capazes de percebê-lo. Apareceu aos grandes como grande, aos pequenos como pequeno, aos anjos como anjo e aos homens como homem. Por isto o Verbo permaneceu oculto de todos. Alguns realmente o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos. Mas quando apareceu gloriosamente aos discípulos sobre a montanha não era pequeno. Ele se tornou grande, mas fez com que os discípulos ficassem grandes, para que pudessem percebê-lo em sua grandeza.

26. Disse naquele dia na ação de graças, “Vós que unis a plenitude da luz com o Espírito Sagrado, incorporai os anjos também às vossas imagens”.

27. Não desprezeis o cordeiro, pois sem ele não é possível ver o portal. Ninguém será capaz de ir ao Rei se estiver despido.

28. O homem celestial tem muito mais filhos do que o homem terreno. Se os filhos de Adão são muitos, apesar de morrerem, quanto mais os filhos do homem perfeito que não morrem e são continuamente gerados.

29. O pai faz um filho, mas o filho não tem poder para fazer um filho. Pois aquele que foi gerado não tem o poder para gerar; o filho obtém irmãos para si, e não filhos.

30. Todos os que nascem no mundo são gerados de maneira natural, enquanto os outros (são gerados) de maneira espiritual. Aqueles que foram gerados em seu coração e esperam a plena realização do humano, nutrem-se da promessa (do objetivo) elevado.

31. (A Graça) chega a ele da boca, do lugar de onde surge o Logos. A pessoa deve ser nutrida da boca para se tornar perfeita. Por isso os perfeitos são concebidos e nascem por meio de um beijo. Por esta razão nós também nos beijamos uns aos outros. Somos concebidos da graça que nos é comum.

32. Havia três que sempre caminhavam com o Senhor: Maria, sua mãe, sua irmã e Madalena, que era chamada sua companheira. Sua irmã, sua mãe e sua companheira todas se chamavam Maria.

33. “O Pai” e “o Filho” são nomes simples; “Espírito Santo” é um nome duplo, pois está em toda parte: acima e abaixo, no oculto e no revelado. O Espírito Santo está no revelado em baixo e no oculto em cima.

34. Os santos servem-se dos poderes malignos, pois estes ficam cegos por obra do Espírito Santo, pensando que estão servindo um homem (comum), todas as vezes que o fazem aos santos. Por isto um discípulo pediu um dia algo deste mundo ao Senhor. Ele lhe respondeu: “Pede a tua mãe, e ela te dará as coisas que pertencem a outrem”.

35. Os apóstolos disseram aos discípulos: “Que toda nossa oferenda adquira sal”. Eles chamavam (Sophia) de “sal”. Sem sal nenhuma oferenda (é) aceitável.

36. Mas Sophia é estéril, (sem) filhos. Por essa razão é chamada de “um traço de sal”. Sempre que eles quiserem ( ... ) do seu jeito, o Espírito Santo ( ... ) seus filhos são muitos.

37. O que o Pai possui pertence ao filho. Enquanto este é pequeno, não se lhe confia o que é seu. Mas quando se faz homem maduro, seu pai lhe dá tudo o que possui.

38. Aqueles que se desencaminham são gerados pelo Espírito e também se desencaminham por meio do Espírito. Assim, com o mesmo sopro o fogo é atiçado e apagado.

39. Echamoth é uma realidade, Echmoth outra. Echamoth é simplesmente sabedoria, enquanto Echmoth é a sabedoria da morte, aquela que conhece a morte, sendo chamada “a pequena sabedoria”.

40. Existem animais domésticos, como o boi, o burro e outros deste tipo. Outros são selvagens e vivem isolados nas regiões ermas. O homem ara o campo com animais domésticos e, com isso, sustenta-se e alimenta os animais, sejam mansos ou selvagens. O mesmo faz o homem perfeito. Ele cultiva por meio de poderes que lhe são submissos, preparando o surgimento de todas as coisas. É assim que tudo se mantém, seja bom ou mal, da direita ou da esquerda. O Espírito cuida de todos e governa todos os poderes, os “mansos” e os “selvagens”, bem como os que são únicos. Pois, na verdade ele os controla (sempre), independente de seus desejos.

41. (Aquele que) foi criado é (belo, mas) tu (não) acharias que os filhos dele são criações nobres. Se ele não fosse criado, mas engendrado, tu acharias que os descendentes dele seriam nobres. Agora, porém, ele foi criado e gerou. O que há de nobre nisto?

42. Primeiro ocorreu o adultério, em seguida o assassinato. E ele foi gerado no adultério, pois era filho da serpente. Assim, tornou-se um assassino, como seu pai, e matou seu irmão. Na verdade, toda união que ocorre entre seres que não são semelhantes é adultério.

43. Deus é um tintureiro. Assim como os bons corantes, chamados de “autênticos”, dissolvem-se nas coisas que são tingidas por eles, também o mesmo ocorre com aqueles a quem Deus tingiu. Como seus corantes são permanentes, eles tornam-se imortais por meio de suas cores. É assim que Deus nos mergulha nas águas do batismo.

44. Ninguém pode ver algo das coisas que realmente existem a menos que se torne como elas. Não é assim que se passa com o homem no mundo: ele vê o sol sem tornar-se o sol; vê o céu, a terra e todas as outras coisas, mas não se torna estas coisas. Isso está de acordo com a verdade. Mas, tu viste algo daquele lugar e te converteste naquelas coisas. Viste o Espírito e te tornaste Espírito. Viste o Cristo e te tornaste Cristo. Vistes o Pai e te tornarás o Pai. Assim, (neste lugar) vês todas as coisas e não (vês) a ti próprio, mas (naquele lugar) realmente vês a ti mesmo, e te tornarás o que vires.

45. A fé recebe, o amor dá. (Ninguém pode receber) se não tiver fé. Ninguém é capaz de dar sem amor. Por esta razão, para que realmente possamos receber, cremos, e para que possamos amar, damos, pois se alguém dá sem amor não recebe benefício pelo que deu.

46. Aquele que não recebeu o Senhor ainda é um hebreu.

47. Os apóstolos que nos precederam chamavam-no assim: “Jesus, o Nazareno, Messias”, isto é, “Jesus, o Nazareno, o Cristo”. O último nome é “Cristo”, o primeiro é “Jesus”, o do meio é “o Nazareno”. “Messias” tem dois significados, “o Cristo” e “o medido”. “Jesus” em hebraico é “a redenção”. “Nazara” é “a verdade”. “O Nazareno”, então, é “o verdadeiro”. “Cristo” foi medido; “o Nazareno” e “Jesus” são a medida.

48. Quando a pérola é atirada na lama ela (não) passa a ser desprezada; tampouco se for banhada em óleo de bálsamo se tornará mais preciosa. Ela sempre manterá o seu valor aos olhos de seu dono. O mesmo ocorre com os filhos de Deus onde quer que estejam. Eles sempre têm valor aos olhos de seu pai.

49. Se disseres, “sou judeu”, ninguém se inquietará; se disseres, “sou romano”, ninguém se perturbará. Se disseres, “sou grego, bárbaro, escravo ou livre”, ninguém se incomodará. Se disseres, “sou cristão”, todos tremerão. Que eu possa receber dessa forma esse galardão que as pessoas do mundo não são capazes de ouvir.

50. Deus alimenta-se de homens. Por isto a humanidade é sacrificada a ele. Antes dos homens serem sacrificados, sacrificavam-se animais, pois aqueles a quem eram sacrificados não eram deuses.

51. Tanto os vasos de vidro como os de argila são feitos com o uso do fogo. Mas, se os de vidro quebram, são refeitos, pois surgiram por meio de um sopro. Os de argila, no entanto, são destruídos, pois foram feitos sem sopro.

52. Um burro, girando uma pedra de moinho, caminhou cem milhas. Quando ele foi solto percebeu que ainda estava no mesmo lugar. Existem pessoas que fazem muitas jornadas, mas sem fazer nenhum progresso em qualquer direção. Quando o crepúsculo as surpreende, não encontram nenhuma cidade nem vilarejo, nenhum produto humano nem fenômeno natural, poder nem anjo. Labutaram em vão, coitadas!

53. A eucaristia é Jesus, pois ele se chama “Pharisatha” em aramaico, isso é “aquele que está estendido”, pois Jesus veio para crucificar o mundo.

54. O Senhor entrou na tinturaria de Levi, tomou setenta e duas cores diferentes e jogou-as na tina. Ele tornou-as todas brancas. E ele disse: “Da mesma forma, o filho do homem veio (como) tintureiro”.

55. A Sophia, que é chamada de “a estéril,” é a mão (dos) anjos. E a companheira do (Senhor) é Maria Madalena. (Jesus amava-a) mais do que (a todos) os discípulos (e costumava) beijá-la (freqüentemente) em seus (lábios). Os demais (discípulos viram seu amor por Madalena). Eles lhe disseram: “Por que a amas mais do que a todos nós?” O Salvador respondeu dizendo: “Por que acham que não os amo como a ela?

56. Quando um cego e uma pessoa normal estão juntos na escuridão, não são diferentes um do outro. Quando chega a luz, então, aquele que vê verá a luz e o cego permanecerá na escuridão.

57. O Senhor disse: “Bem aventurado aquele que é antes de existir. Pois, aquele que é foi e será.”

58. A superioridade do homem não é óbvia à vista, mas encontra-se no que está escondido da visão. Por isto o homem domina os animais, que são maiores e mais fortes do que ele. Isso os capacita a sobreviverem. Mas quando o homem se separa deles, mordem e matam uns aos outros. Devoram-se porque não encontram nenhum alimento. Porém, agora que o homem preparou o solo eles encontram o que comer.

59. Se alguém entra n’água e sai dela sem nada haver recebido e diz, “sou cristão,” ele toma o nome emprestado a juros. Porém, se recebeu o Espírito Santo, recebe o nome de presente. Aquele que recebe um presente não precisa devolvê-lo, mas o pagamento é exigido de quem toma emprestado a juros.

60. É assim que (acontece com) quem experimenta um mistério. Grande é o mistério do casamento! Pois o mundo é complexo; (o sistema) está fundamentado na humanidade e (ela) está baseada no matrimônio. (Portanto) contemplem a união pura, pois ela tem (um grande) poder.  Sua imagem consiste numa (corrupção).

61. As formas dos espíritos impuros incluem machos e fêmeas. Os machos unem-se com as almas que habitam em formas femininas, enquanto as fêmeas misturam-se com os que se encontram em formas masculinas, porém que são desobedientes. E não se consegue escapar deles, pois detêm a pessoa (a menos que) ela receba um poder masculino e feminino, o noivo e a noiva. Eles são recebidos na câmara nupcial espelhada. Quando as mulheres tolas vêem um homem sozinho, lançam-se sobre ele, entretendo-o e maculando-o. Igualmente, os homens voluptuosos, quando vêem uma mulher bonita sozinha, procuram seduzi-la e possuí-la, desejando corrompê-la. Porém, se vêem um homem com sua esposa juntos, as fêmeas não podem se aproximar do homem, nem o macho da mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um ao outro, não pode haver nenhum risco ao homem ou à mulher.

62. Aquele que sai do mundo não pode mais ser detido pelo fato de ter estado no mundo. Ele revela que está acima do desejo e do medo (da carne). Ele domina (o desejo), é superior à inveja. Se (a multidão) vem para apanhá-lo e sufocá-lo, por que (ele) não será capaz de escapar (dos) poderes? Por que deverá (temê-los)?

63. Alguns (dizem), “Temos fé”, para que (possam se livrar) dos espíritos e dos demônios (imundos). Porém, se tivessem o Espírito Santo, nenhum espírito imundo se aproximaria deles.

64. Não temas a carne nem a ame. Se a temeres, ela te dominará. Se a amares, ela te paralisará e devorará.

65. Ou se está neste mundo, na ressurreição ou nos mundos intermediários. Deus me livre de encontrar-me ali! Neste mundo existe o bem e o mal. As coisas boas do mundo não são apenas boas, e as coisas más não são apenas más. Porém, depois deste mundo, existe mal que realmente é mal - o que é chamado de “o meio,” o lugar intermediário. É o mundo dos mortos. Enquanto estamos neste mundo seria bom alcançarmos a ressurreição, para que, quando nos despirmos da carne, possamos encontrar o descanso e não ficarmos vagando na transição. Porque muitos se perdem no caminho. É melhor sair do mundo antes de pecar.

66. Alguns nem querem nem podem fazer o mal; outros querem mas não o fazem; são seus desejos que os torna transgressores mesmo se não fazem nada. Falta retidão àqueles que nada querem e àqueles que fazem o mal.

67. O discípulo de um apóstolo, numa visão, percebeu algumas pessoas confinadas numa casa em fogo, gritando com voz angustiada, joguem água nas chamas, imploravam. Existe água no (...) e eles proclamam para si mesmos: (...). As águas não podem nos salvar (da morte! Iludidos) por seu desejo, eles receberam como castigo (aquilo) que é chamado “a escuridão (exterior)”

68. A alma e o espírito vieram à existência a partir da água e do fogo. É da água, do fogo e da luz que o filho da câmara nupcial (veio à existência). O fogo é a crisma, a luz é o fogo. Não estou me referindo ao fogo que não tem forma, mas ao outro fogo cuja forma é branca, que é brilhante e belo e que confere esplendor.

69. A verdade não veio nua ao mundo, mas veio envolta em imagens simbólicas. (O mundo) não a receberá de qualquer outra forma. Há um renascimento e uma imagem do renascimento. Certamente é necessário nascer outra vez por meio da imagem. Qual delas? A ressurreição. A imagem deve nascer outra vez por meio da imagem. A câmara nupcial com sua imagem; deve-se entrar na verdade através da imagem: isso é a restauração. Deve fazê-lo não só por meio do nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas também o integrando em si mesmo. Quem não for gerado assim, o nome (cristão) lhe será retirado. A pessoa recebe o nome na unção, na plenitude e no poder da cruz. Esse poder os apóstolos chamaram “a direita com a esquerda”. Pois essa pessoa não é mais um cristão, mas um Cristo.

70. O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial.

71. Ele disse: “Vim fazer (as coisas abaixo) como as coisas (acima, e as coisas) fora como aquelas (dentro. Vim para uni-las) no lugar”. Ele falava sobre as coisas do eon (acima) deste lugar por meio de (imagens) simbólicas.

72. Aqueles que dizem “(existe um homem celestial e) existe outro acima dele”, estão enganados. Porque é o primeiro desses dois (homens) celestiais que se manifesta; ele é chamado “aquele que está abaixo”; e aquele a quem pertence o oculto (deve ser) o que está acima dele. Portanto, seria melhor dizerem, “O interior e o exterior, e o que está fora de exterior”. Por isto o Senhor chamou a destruição de “a escuridão exterior”; não existe nada além dela. Ele disse: “Meu Pai que está em segredo”. Ele disse, “Entra em teu aposento, fecha a porta e ora a teu Pai que está em segredo” (Mt 6:6), aquele que está no interior de tudo. Mas o que está no interior de tudo é a plenitude. Mais interior do que ela não existe nada. É sobre isto que dizem, “O que está acima deles”.

73. Antes de Cristo muitos haviam saído. E não conseguiam mais entrar no lugar de onde haviam saído, e foram para um lugar de onde não conseguiam mais sair. Então veio o Cristo. Ele retirou aqueles que entraram e pôs para dentro os que saíram.

74. Quando Eva ainda estava em Adão a morte não existia. Quando ela se separou dele a morte passou a existir. Se (ela) entrar outra vez (e) ele (a) receber em si, a morte deixará de existir.

75. “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” (Mc 15:34). Foi na cruz que ele disse essas palavras. Ele dividiu o lugar (abaixo do lugar acima), tendo sido gerado em Espírito por Deus. O Senhor ergueu-se dentre os mortos. Ele tornou-se (outra vez) como tinha sido, mas (seu corpo) tinha sido tornado perfeito. Ele estava encarnado, mas sua carne era o verdadeiro corpo. (No entanto, nossa carne) não é verdadeira, mas somente uma imagem da verdadeira.

76. A câmara nupcial não é para os animais, nem para os escravos, nem para as pessoas impuras; mas é para os seres livres e imaculados.

77. Somos realmente engendrados pelo Espírito Sagrado, mas somos regenerados por Cristo. Em ambos os casos somos ungidos pelo Espírito. Tendo sido gerados, somos unidos.

78. Ninguém pode ver-se na água ou num espelho sem luz. Tampouco poderá ver-se na luz sem água ou espelho. Por essa razão, é apropriado batizar nos dois, na luz e na água. Pois bem, a luz é a crisma.

79. Havia três lugares para sacrifício em Jerusalém. O que estava voltado para o poente era chamado de “o sagrado.” Outro, voltado para o sul, era chamado de “o santo do santo.” O terceiro, voltado para o nascente, era chamado “o santo dos santos,” o lugar onde só o Sumo Sacerdote podia entrar. O Batismo é o edifício “sagrado.” A Redenção é “o santo do santo,” e a Câmara Nupcial “o santo dos santos.” O Batismo conduz à Ressurreição (e à) Redenção; mas a Redenção (ocorre) na Câmara Nupcial. Mas a Câmara Nupcial ocorre naquele lugar que é superior ao ( ... ) tu não encontrarás ( ... ) são aqueles que oram ( ... ) Jerusalém. ( ... ) Jerusalém, ( ... ) aqueles chamados “o santo dos santos” ( ... o) véu foi rasgado ( ... ) câmara nupcial exceto a imagem ( ... ) acima. Por esta razão é lá que o véu rasga-se de alto a baixo. Pois é lá que alguns se levantam e despertam.

80. Os poderes não podem ver nem deter aqueles que estão vestidos com a luz perfeita. A pessoa pode vestir-se com essa luz no sacramento na união.

81. Se a mulher não tivesse se separado do homem, ela não morreria mais tarde com o homem. Sua separação foi a origem da morte. Por isto o Cristo veio, para reparar a separação que houve no princípio e unir os dois outra vez e para dar vida àqueles que morreram devido à separação, unindo-os de novo. Mas a mulher une-se a seu marido na câmara nupcial. Na verdade, aqueles que foram unidos na câmara nupcial não mais serão separados. Portanto, Eva separou-se de Adão porque não foi na câmara nupcial que ela se uniu a ele.

82. A alma de Adão chegou à existência por meio de um sopro. O companheiro de sua alma é o Espírito. Sua mãe é a coisa que lhe foi dada. Sua alma lhe foi tomada e substituída por um (espírito). Quando ele estava unido (ao Espírito), (pronunciou) palavras incompreensíveis aos poderes. Eles o invejaram ( ... ) parceiro espiritual ( ... ) escondido ( ... ) oportunidade ( ... ) somente para eles ( ... ) câmara nupcial para que ( ...)

83. Jesus manifestou (às margens do) Jordão, a (plenitude do reino) dos céus, que (existia) antes de todas as coisas. Ele foi engendrado novamente. Ele (que fora ungido) outrora foi ungido novamente. Ele que tinha sido redimido, redimiu (outros) por sua vez.

84. Se um mistério pode ser dito, o pai de tudo que existe uniu-se com a virgem que havia descido, e um fogo brilhou para ele naquele dia. Ele revelou o poder da câmara nupcial. Portanto, seu corpo passou a existir naquele dia. Surgiu na câmara nupcial como alguém que veio à existência por meio do noivo e da noiva. Foi assim que Jesus estabeleceu a totalidade para si em seu coração. E por meio destes (do noivo e da noiva) é conveniente que cada um dos discípulos entre em seu repouso.

85. Adão veio a ser por meio de duas virgens, do Espírito e da Terra virgem. O Cristo, portanto, nasceu de uma virgem para retificar a queda que houve no princípio.

86. Existem duas árvores no Paraíso. Uma sustenta (animais) e a outra sustenta homens. Adão (comeu) da árvore que nutria animais. (Ele) tornou-se um animal e produziu animais. Por causa disso os (animais) passaram a ser adorados.

87. Deus criou os homens e os homens criaram deuses. É desta maneira que são as coisas no mundo, os homens criam deuses e adoram a sua criação. Seria apropriado que os deuses adorassem os homens!

88. Certamente a realização do homem depende de seu poder. Por isto referimo-nos às suas realizações como suas “habilidades.” Entre suas realizações encontram-se seus filhos. Eles têm sua origem num momento de repouso. Portanto, suas habilidades determinam o que ele pode realizar, mas esse repouso mostra-se evidente nos filhos. Isso se aplica diretamente à imagem. Aqui está o homem feito de acordo com a imagem realizando coisas com esforço, mas produzindo seus filhos em repouso.

89. Neste mundo, os escravos servem os livres. No Reino dos Céus, os livres vão cuidar dos escravos: os filhos da câmara nupcial vão cuidar dos filhos do casamento. Os filhos da câmara nupcial têm (um só) nome: repouso. (De modo geral) eles não precisam nada mais (porque têm) a contemplação.

90. A contemplação das imagens é a conscientização na grandeza da glória.  

91. Aqueles que mergulham na água não ( ... ) experimentam a morte. Pois ( ... ) vai redimi-los (quando eles prosseguirem); ou seja, aqueles que foram (chamados para serem preenchidos) em seu nome. Pois ele disse, “(Assim) devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3:15).

92. Aqueles que dizem que devem morrer primeiro para depois ressuscitar estão enganados. Se não receberem a ressurreição enquanto estiverem vivos, não receberão nada quando morrerem. Assim também, quando falam sobre o batismo dizem, “O batismo é uma grande coisa”, pois as pessoas viverão se o receberem.

93. Felipe, o apóstolo, disse: “José, o carpinteiro, plantou um bosque porque precisava de madeira para seu ofício. Foi ele que fez a cruz das árvores que plantou. Seu próprio descendente ficou pendurado naquilo que ele plantou. Seu descendente foi Jesus e o plantio foi a cruz.” Mas a árvore da vida está no meio do paraíso. Porém é da oliveira que recebemos a crisma, e da crisma a ressurreição.

94. Este mundo é um devorador de cadáveres. Todas as coisas que se comem aqui também morrem. A verdade alimenta-se da vida. Portanto, ninguém nutrido pela (verdade) morrerá. Foi daquele lugar que Jesus veio e trouxe alimento. Aos que a desejavam ele deu (vida para que) eles não morressem.

95. Deus (criou) um jardim-paraiso. O homem (viveu naquele) jardim. Existem ( ... ) e ( ... ) de Deus. ( ... ) As coisas que estão no (seu coração) (...) desejo. Esse jardim (é o lugar em que) me dirão, “(coma) isto ou não coma (aquilo, de acordo com a sua) escolha.” Esse é o lugar em que comerei todas as coisas, pois ali está a árvore do conhecimento. Foi ela que matou Adão, mas aqui a árvore do conhecimento faz com que o homem viva. A lei era a árvore. Ela tem o poder de conceder o conhecimento do bem e do mal. Ela nem o removeu do mal, nem o colocou no bem, mas fez com que morressem aqueles que a comeram. Pois a morte se originou quando foi dito, “coma isso, não coma aquilo”.

96. A crisma é superior ao batismo, pois foi a partir da palavra “crisma” que fomos chamados de “cristãos” e certamente não por causa da palavra “batismo.” E é por causa da crisma que “o Cristo” recebeu seu nome. Porque o Pai ungiu o Filho, o Filho ungiu os apóstolos e os apóstolos nos ungiram. Aquele que foi ungido tem tudo. Ele tem a ressurreição, a luz, a cruz e o Espírito Santo. O Pai lhe concedeu isso na câmara nupcial (e) ele aceitou.

97. O Pai está no Filho e o Filho no Pai. Isso é o Reino dos Céus.

98. O Senhor falou bem: “Alguns alcançam o reino dos céus rindo e saem (felizes). O cristão que (mergulha) na água volta (como senhor de) tudo, porque (ele não considera o batismo) como um jogo. Ao contrário ele despreza (este mundo mutante) em prol da realeza dos céus. Se ele desdenha (o mundo) e o despreza como um jogo, ele (aparecerá) rindo.

99. Assim é também com o pão e o cálice, e a crisma, apesar de haver outro superior a esses.

100. O mundo foi criado por engano. Porque aquele que o criou queria fazê-lo imperecível e imortal. Ele não conseguiu realizar o seu desejo, pois o mundo nunca foi imperecível e tampouco aquele que fez o mundo. Porque as coisas não são eternas, mas os filhos são. Nada será capaz de tornar-se eterno se não se tornar primeiramente um filho. Mas, aquele que é incapaz de receber, não será muito mais incapaz de dar?

101. O cálice da oração contém vinho e água, já que foi indicado como símbolo do sangue com o qual se realiza a ação de graça. Ele está pleno do Espírito Santo e pertence ao homem inteiramente perfeito. Quando bebermos desse cálice, receberemos o homem perfeito.

102. A água viva é um corpo. Precisamos revestir-nos do homem vivo. Portanto, quando ele está prestes a descer à água, despe-se para vestir-se como homem vivo.

103. Um cavalo procria um cavalo, um homem gera um homem, um deus faz surgir um deus. Assim é também com (o) noivo e a (noiva). Seus (filhos) surgem da câmara nupcial. (Os) judeus não foram derivados (dos) gregos, mas (nós cristãos surgimos) dos judeus. E estes eram referidos como “o povo escolhido de (Deus),” “o verdadeiro homem,” “o filho do homem” e “os filhos do filho do homem.” Essa raça é renomada no mundo e esse é o lugar onde vivem os filhos da câmara nupcial.

104. Enquanto neste mundo a união é entre marido e mulher, o aspecto da força complementado pela passividade, no reino (eon) eterno, a forma de união é diferente, apesar de referirmos as duas pelo mesmo nome. Porém, existem outros nomes que são superiores a todos os nomes indicados e que transcendem a força. Pois, no lugar onde há força, existem aqueles que são superiores à força.

105. Um não é e o outro é, mas os dois estão juntos nesta unidade. Isto é Aquilo que não será capaz de vir a (quem) tem o coração de carne.

106. Não é apropriado que aqueles que têm tudo conheçam a si mesmos? Alguns, de fato, que não conhecem a si mesmos, não serão capazes de gozar as (coisas) que possuem. Porém, aqueles que compreenderam a si mesmos aproveitarão o que têm.

107. Não só serão incapazes de deter o homem perfeito, mas nem mesmo serão capazes de vê-lo, pois, se o vissem, iriam detê-lo. Não há outro meio para uma pessoa adquirir essa qualidade, a menos que vista a luz perfeita (e) que a luz perfeita esteja sobre ele. Aquele que (a tiver vestido) partirá (deste mundo). Este é o (filho aperfeiçoado da Câmara Nupcial).

108. É conveniente que sejamos levados a nos tornarmos (pessoas perfeitas) antes de partirmos (do mundo). Quem recebe tudo (sem ter se tornado mestre) dessas coisas (não será capaz de controlar) aquele lugar, mas (partirá) para a transição como imperfeito. Somente Jesus sabe o fim dessa pessoa.

109. O homem santo é inteiramente santo, incluindo o seu corpo. Pois, se tomar o pão, o consagrará. Ele consagrará o cálice e tudo o mais que receber. Assim, como não vai purificar o corpo também?

110. Ao aperfeiçoar a água do batismo, Jesus a esvaziou da morte. Assim descemos à água, mas não somos enviados à morte, (ao contrário) para que não sejamos lançados aos espíritos do mundo. Quando aqueles espíritos sopram, eles trazem o inverno. (Porém) quando o Espírito Santo sopra, chega o verão.

111. Aquele que tem o conhecimento da verdade é um homem livre. Porém o homem livre não transgride, porque “aquele que peca é escravo do pecado” (Jo 8:34). A verdade é a mãe, o conhecimento o pai. O mundo chama de libertos àqueles que conseguem não pecar. O reconhecimento da verdade exalta os corações daqueles que conseguem não pecar. Isso é o que os liberta e exalta acima de tudo. Mas “o amor é inspirador” (1 Co 8:1). Na verdade, aquele que, por meio do conhecimento tornou-se livre, torna-se um escravo pelo amor daqueles que não foram ainda capazes de alcançar a liberdade pelo conhecimento. O conhecimento, porém, torna-os capazes de se tornarem livres.

112. O amor (nunca toma) algo, pois como (pode) tomar qualquer coisa quando tudo lhe pertence. Ele não (diz, “aquilo é seu”) ou “isso é meu,” (mas, “tudo isso) é seu.”

113. O amor espiritual é vinho e fragrância. Todos que com ele se ungem se deleitam nisso. Enquanto aqueles que foram ungidos estiverem presentes, os que estão por perto também se aproveitam (da fragrância). Porém, quando os que foram ungidos com a crisma se retiram, então aqueles que não foram ungidos, mas estavam meramente por perto, retornam a seus odores originais. O samaritano não deu ao homem ferido nada mais do que vinho e óleo, e com isso curou suas feridas, pois “o amor cura inúmeros pecados” (1 Pe 4:8).

114. As crianças que a mulher gera se parecem com aquele que a ama. Quando é o seu marido, elas se parecem com seu marido, quando é um amante, então elas se parecem com o amante. Com freqüência, se uma mulher (adúltera) se deita com seu marido por conveniência, enquanto seu coração está com o amante, com quem ela geralmente tem relações, a criança que ela vier a conceber nascerá parecendo-se com o adúltero. Portanto, vós que viveis com o Filho de Deus, não ameis o mundo, mas sim o Senhor, para que aqueles que forem gerados não se parecem com o mundo, mas com o Senhor.

115. Os seres humanos se unem aos humanos, os cavalos aos cavalos, os jumentos aos jumentos. Membros de uma espécie naturalmente se unem (com) seus semelhantes. Assim o Espírito procura o Espírito, o pensamento se relaciona com o pensamento, e a (luz) se une (com a luz. Se) te tornares mais humano, será (um ser humano) que te amará. Se te tornares (espiritual), será o Espírito que se unirá a ti. Se te tornares racional, será o Logos que se associará contigo. Se te tornares iluminado, é a luz que compartilhará contigo. Se te tornares um daqueles que pertencem ao alto, são aqueles que pertencem ao alto que virão a ti. (Mas) se te tornares um cavalo, um jumento, um touro, um cão, uma ovelha ou qualquer outro animal dos que estão fora ou embaixo, então, nenhum ser humano, espírito, pensamento ou luz será capaz de amar-te. Nem os que pertencem ao alto nem os que pertencem ao interior serão capazes de repousar em ti e não terás parte deles.

116. Aquele que é escravo contra o seu desejo será capaz de tornar-se livre. Aquele que se tornou livre devido ao favor de seu mestre, e depois se entregou como escravo novamente, não será mais capaz de ser livre.

117. A agricultura no mundo requer a cooperação de quatro elementos essenciais. A colheita será reunida no celeiro somente se houver a ação natural da água, da terra, do vento e da luz. A agricultura de Deus, da mesma forma, é baseada em quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento. A fé é a terra em que fincamos raiz. A esperança é a água por meio da qual somos nutridos. Amor é o vento por meio do qual crescemos. O conhecimento, então, é a luz, por meio da qual (amadurecemos).

118. A graça nos é comunicada de quatro maneiras: pelo trabalho na terra, o gosto pelo céu e pelo que está além do céu, e o amor pela verdade. Bendito é aquele que não causa nenhuma tristeza a ninguém. Esse é Jesus Cristo. Ele foi a todos os lugares sem sobrecarregar a ninguém. Portanto, bem aventurado é aquele que age dessa forma, porque é um homem perfeito, o Logos está com ele.

119. Pois a palavra nos diz que esse tipo de homem é difícil de encontrar. Como seremos capazes de realizar uma coisa tão nobre? Como essa pessoa dará consolo a todos?

120. Dizei-nos a seu respeito! Pois essa (tentativa de retratá-lo) corretamente é difícil. Como poderemos ser bem sucedidos nessa grande tarefa?

121. Em primeiro lugar, não é correto causar tristeza a ninguém - seja importante ou modesto, crente ou sem crença – e, então, oferecer conforto somente àqueles que se comprazem em boas ações. Algumas pessoas acham proveitoso proporcionar descanso às pessoas ideais. Aquele que faz o bem não pode dar a paz a tais pessoas, pois não age por vontade própria. Porém, é incapaz de causar tristeza, já que não aflige a ninguém. Na realidade, a pessoa ideal às vezes causa tristeza aos outros -- não que seja sua intenção fazer isto -- ao contrário, é a própria maldade dos outros que é responsável pela tristeza que sentem. Aquele que é natural confere alegria aos bons. Algumas pessoas, no entanto, sentem-se terrivelmente aflitas com tudo isto.

122. Havia um chefe de família que tinha todas as coisas imagináveis: filhos, escravos, gado, cachorros, porcos, milho, cevada, palha, pastagens, (ossos), carne e bolotas[1]. (Ele era, porém,) uma pessoa sensata e dava o alimento que convinha a cada um. Servia pão às crianças (com azeite de oliva e carne). Dava farinha aos escravos. Lançava cevada, palha e capim ao gado. Dispensava ossos aos cachorros e bolotas e lavagem aos porcos. O mesmo ocorre com o discípulo de Deus: se ele for uma pessoa sensata compreende as necessidades do discipulado. As formas corporais não o enganarão, e ele examinará a condição da alma de cada um e falará de acordo. Existem muitos animais no mundo que se apresentam de forma humana. Quando o discípulo os identifica, proporciona bolotas aos porcos, cevada, palha e capim ao gado, ossos aos cães. Aos escravos proporcionará somente as lições elementares, enquanto aos filhos oferecerá a instrução completa.

123. Existe o Filho do Homem e o filho do Filho do Homem. O Senhor é o Filho do Homem, e o filho do Filho do Homem é aquele que cria por meio do Filho do Homem. O Filho do Homem recebeu de Deus a capacidade para criar. Ele também tem a capacidade para gerar.

124. Aquele que foi criado é uma criatura. Aquele que foi gerado é um descendente. Uma criatura não pode gerar, (mas) um descendente pode criar. Porém, seu descendente é uma criatura. Portanto os descendentes de (uma pessoa) não são seus filhos, mas sim filhos de (Deus).

 125. Aquele que cria trabalha abertamente e é visível. Aquele que gera o faz (em privacidade), ficando escondido, das imagens (dos outros). Da mesma forma, o Criador (o faz) abertamente. Mas, ao gerar (engendra) os filhos em segredo.

126. Ninguém (pode) saber quando (o marido) e a esposa têm relações, a não ser os dois. Realmente, o casamento no mundo é um mistério para os que assumiram um consorte. Se existe uma qualidade oculta no casamento do mundo, maior ainda será o verdadeiro mistério do matrimônio imaculado! Ele não é carnal, mas puro. Não pertence ao desejo, mas à vontade. Não pertence à escuridão nem à noite, mas ao dia e à luz. Quando um casamento está aberto ao público, torna-se prostituição e a noiva faz o papel de prostituta não só quando é inseminada por outro homem, mas ainda quando sai de seu quarto e é vista. Ela só deve mostrar-se a seu pai, sua mãe, ao amigo do noivo e aos filhos do noivo. A estes é permitido entrar todos os dias na câmara nupcial. Aos outros resta simplesmente ansiar por ouvir a voz da noiva e deleitar-se com sua fragrância. Eles que se alimentem das migalhas que caem da mesa, como os cães. O noivo e a noiva pertencem à câmara nupcial. Ninguém poderá ver o noivo e a noiva, a menos que (se torne) um com eles.

127. Quando Abraão (soube) que ele veria o que devia ver, (cortou) a carne do prepúcio, mostrando que é apropriado renunciar à carne (que pertence) a este mundo.

128. (A maior parte das coisas) no mundo, enquanto suas (partes internas) estão ocultas, ficam de pé e vivem. (Se são reveladas), morrem como é ilustrado pelo homem visível: (enquanto) os intestinos do homem estão ocultos, ele está vivo; quando seus intestinos são expostos e saem de dentro dele, ele morre. O mesmo ocorre com a árvore: enquanto a raiz está escondida ela brota e cresce. Se suas raízes são expostas, a árvore seca. Assim ocorre com tudo o que é gerado no mundo, não só com o revelado, mas (também) com o oculto. Portanto, enquanto a raiz do mal está escondida, ele permanece forte. Mas quando é reconhecido ele se dissolve. Quando é revelado ele morre. É por isto que foi dito: “O machado já está posto à raiz das árvores” (Mt 3:10). Ele não só cortará -- o que é cortado brota outra vez -- mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus arrancou inteiramente a raiz das coisas, enquanto outros só o fizeram parcialmente. Quanto a nós, que cada um se esforce em busca da raiz do mal que está dentro de si e que ele seja arrancado do coração de cada um pela raiz. O mal será arrancado se nós o reconhecermos. Mas se o ignorarmos, ele se enraizará em nós e produzirá seus frutos em nosso coração. Ele nos dominará. Seremos seus escravos. O mal nos manterá cativos, para que façamos o que não queremos e não façamos o que queremos. Ele é poderoso porque nós não o reconhecemos. Enquanto (persistir oculto) permanecerá ativo.

129. A ignorância é a mãe de (todos os males). A ignorância está a serviço da (morte, porque) as coisas que se originam da ignorância não foram, não (são) nem estarão (entre as coisas verdadeiras. No entanto,) elas se tornarão perfeitas quando toda a verdade for revelada. Porque a verdade é como a ignorância: enquanto está escondida repousa em si mesma, mas quando é revelada passa a ser reconhecida. (A verdade) é gloriosa, pois prevalece sobre a ignorância e nos liberta da confusão. O Mestre disse, “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). A ignorância escraviza. O conhecimento promove a liberdade. Se reconhecermos a verdade, encontraremos os frutos da verdade dentro de nós. Se nos unirmos a ela, nos trará a plenitude.

130. Quando sabemos sobre as coisas manifestadas da criação dizemos que elas são poderosas e respeitáveis. (Mas) o que desconhecemos, consideramos fraco e desprezível. Contrastando com essa situação, as coisas manifestas da verdade são consideradas fracas e desprezíveis, enquanto as coisas ocultas são tidas como fortes e em alta estima. Os mistérios da verdade são revelados, porém, por meio de símbolos e alegorias.

131. A câmara nupcial, no entanto, permanece oculta. É o Santo dos Santos. O véu inicialmente ocultava (a forma) como Deus governa a criação. Porém, quando o véu for rasgado e as coisas interiores forem reveladas, esta casa ficará desolada, e será abandonada e (destruída). E toda a deidade (inferior) fugirá daqui, não para o Santo (dos) Santos, porque não será capaz de se misturar com a (luz) pura e com a plenitude (perfeita), mas irá para baixo das asas da cruz (e de) seus braços.

132. Esta arca será (nossa) salvação quando o cataclismo das águas ocorrer.

133. Aqueles que pertencem à ordem sacerdotal serão capazes de retirar-se para dentro do véu, com o sumo sacerdote. Por esta razão o véu não se rasgou somente no alto, pois neste caso estaria aberto somente para os do alto; nem foi rasgado somente em baixo, pois neste caso teria sido revelado somente para os de baixo. Mas foi rasgado de alto a baixo. Aqueles acima abriram para nós que estamos em baixo, para que pudéssemos penetrar no segredo da verdade.

134. Esse (segredo) realmente é tido em alta consideração (e) é poderoso! Porém, penetramos nele por meio de imagens inferiores e signos de fraqueza. Eles são realmente modestos quando comparados com a glória perfeita. Há uma glória que ultrapassa a glória e um poder que ultrapassa o poder. Portanto, as coisas perfeitas se abriram para nós, juntamente com as coisas ocultas da verdade. O Santo dos Santos foi revelado, e a câmara nupcial nos convida a entrar.

135. Enquanto estiver escondida, (a verdade permanece) potencial, pois ainda não foi removida do âmago da semente do Espírito Santo. Portanto, eles são escravizados pela opressão. Mas, quando a Luz Perfeita for revelada, então, ela vai brilhar sobre todos. E todos os que estiverem em seu bojo (receberão a crisma). Então, os escravos serão libertados, (e) os cativos resgatados.

136. “(Toda) planta (que) meu pai que está nos céus (não tiver) plantado será arrancada” (Mt 15:13). Aqueles que estiverem separados se unirão (e os vazios) e serão preenchidos. Quem (entrar) na câmara nupcial nascerá na (luz). Porque eles (não foram gerados) como nos casamentos que não (são vistos) e que acontecem de noite, cujo fogo (queima) de noite e é logo apagado. Mas, por outro lado, os mistérios daquele outro matrimônio são consumados de dia e sob a luz. Nem aquele dia nem sua luz jamais terminam.

137. Se alguém tornar-se um filho da Câmara Nupcial, ele receberá a luz. Se alguém não recebê-la enquanto estiver aqui, não será capaz de recebê-la no outro lugar. Quem receber aquela luz não será visto, nem poderá ser detido. E ninguém será capaz de atormentá-lo, mesmo quando ele estiver vivendo no mundo. E também, quando se retirar do mundo, ele já terá recebido a verdade em imagens. O mundo torna-se o reino (eon) eterno, porque o reino eterno é a plenitude para ele. E isto será revelado a ele pessoalmente, não escondido na escuridão e à noite, mas oculto num dia perfeito e sob a luz sagrada.

 


O Evangelho segundo Felipe.


[1] Provavelmente uma referência às bolotas de carvalho, comuns no oriente médio, semelhantes ao pinhão. (N.T.)

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