Budismo é a tradição formada a partir das práticas ensinadas por Sidarta Gautama 563 ou 623 a.C. em Lumbini, Nepal, na época Índia, conhecido como Buda Shakyamuni "sábio dos Shakyas", é a figura-chave do budismo há pelo menos 2.500 anos.

De acordo com a Tradição Hindu, Buda é um Avatar de Vishnu (Deus Supremo), baseados nas escrituras Upanishads, Vishnu e Bhagavad Purana. A palavra Buda vem de Bodh, que significa despertar.

Ao despertar, se iluminar Buda pensa que isso não poderia ser compartilhado, porém Brahma teria solicitado que ele ensinasse o que havia conquistado, porque alguns seres poderiam reconhecer o que ele reconheceu.

Os ensinamentos atribuídos a Gautama foram repassados através da tradição oral, ensina as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. A prática central de quase todas as linhas budistas é a meditação, método e resultado para uma familiarização e entendimento sobre a própria mente, práticas para controle do ego, e o despertar para iluminação. Buda dizia que seu ensinamento ia contra o sistema, ao contrariar os infinitos desejos egoístas do homem, "Atingi esta Verdade que é profunda, difícil de ver, difícil de compreender, compreensível somente aos sábios, os homens submetidos pelas paixões e cegos pela obscuridade não podem ver essa Verdade, que vai contra o sistema, porque é sublime, profunda, sútil e difícil de compreender". A filosofia sobre o caminho e os resultados variam conforme a escola.

A transmissão do Dharma do Buddha no Tibet ocorreu em dois períodos principais. Houve a primeira difusão do Dharma, por volta de 600 d.C, que foi imensamente potencializada, pelo Guru Rinpoche Padmasambhava. Essa primeira propagação do Dharma no Tibet, das traduções das escrituras em sânscrito para a língua tibetana, e ensinamentos e transmissões dadas por Guru Rinpoche, veio a formar a “Antiga Tradição” (tib. nyingma), Escola Nyingma.

Outros Mestres da Índia como o Pandita Atisha e o tibetano Tsongkapha vieram posteriormente ensinar no Tibet e formaram os pilares da segunda propagação do Dharma no Tibet, e que deu origem a “Nova Tradição” (tib. sar ma) através das Escolas Gelug. As escolas do budismo tibetano, baseadas nas transmissões das escrituras indianas para o platô tibetano, são achadas tradicionalmente no Tibet, Butão, norte da Índia, Nepal, Mongólia.

A maioria dos praticantes nesses países podem ser classificados como vajrayanas, que é um conjunto de escolas budistas esotéricas. A Tradição Vajrayana, é a fonte conhecida para se praticar o budismo original indiano, que foi praticamente erradicado de onde se originou, utiliza meios hábeis como o caminho acelerado possibilitando a iluminação. O nome vem do sânscrito e significa "veículo de diamante", possuem como modelo principal a figura do Lama. O objetivo da prática é se tornar um Bodhisattva.

Se você está numa praia e enche a mão de areia.
Esse tanto de areia em relação à areia da praia é a proporção de felizardos que têm contato direto com os ensinamentos budistas.
Se você abre a mão e deixa cair a areia, os grãos que sobram são os que estão envolvidos com a escola Mahayana.
Depois de bater as mãos para tirar a areia que resta, não sobra quase nada.
Esses últimos grãos, que quase não se vê, são os estudantes do budismo Vajrayana, raros e preciosos.

Ser budista.

Tenha confiança em seu próprio potencial espiritual, em sua habilidade de encontrar seu próprio caminho único.

Aprenda com outros resolutamente e use o que julgar útil, mas também aprenda a confiar em sua própria sabedoria interior.

Tenha coragem. Esteja desperto e consciente.

Lembre-se que o budismo não é sobre ser budista, ou seja, obter uma nova etiqueta de identidade.

Nem é sobre colecionar conhecimentos cerebrais, práticas e técnicas.

De maneira última, é sobre abandonar todas as formas e conceitos, se tornar livre e despertar.

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Gnose, tem por origem etimológica o termo grego "gnosis", que significa "conhecimento". Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental.


A palavra "Gnosis" geralmente é traduzida por "conhecimento", mas a Gnose não é, primordialmente, um conhecimento racional; a língua grega distingue entre o conhecimento científico (ele conhece matemática) e, reflexivo (ele se conhece), experiência que é Gnose, percepção direta daquilo que é, percepção interior, um processo intuitivo de conhecer-se a si mesmo.

A Sabedoria ultrapassa o intelecto, através da intuição, contempla. A Sabedoria faz com que a Verdade seja inteligível. O intelecto usa a razão e o conhecimento discursivo.

Gnose é usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua Essência Eterna, maravilhosa, pela via do coração.


Gnose é uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva.

Nós Gnósticos usamos de explicações metafísicas e 'mitologicas' para falar da criação do universo e dos planos espirituais, mas nunca deixamos de relacionar esse mundo externo e mitologico a processos internos que ocorrem no homem. Hoje a palavra mito, significa alguma coisa inveridica, irreal ou ficticia. Entretanto ela deriva do vocábulo grego mythos, que em seu uso original significa uma explicação da realidade que lhe confere significado.

GNOSTICISMO: Movimento que provavelmente se originou-se na Ásia Menor. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Índia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos do Helenismo, Zoroastrismo, do Hermetismo, do Hinduísmo, do Budismo Tibetano, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo primitivo. Possuíam uma linguagem técnica característica e ênfase na busca da sintonia interior com essa Gnosis, essa Sabedoria Divina, sem intermediários, um conhecimento do Divino por experiência própria.

Enquanto existir uma luz na individualidade mais recôndita da natureza humana, enquanto existirem homens e mulheres que se sintam semelhantes a essa luz, sempre haverá Gnósticos no mundo


"Não escrevo para aqueles que estão imbuídos de preconceitos, que compreendem e sabem tudo, mas que no entanto não Sabem nada, pois eles já estão satisfeitos e ricos, mas sim para os simples como eu, e assim me alegro com meus semelhantes."

Jacob Boehme




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

SUFISMO


TRATADO DA UNIDADE


CAPITULO PRIMEIRO:

QUE ALLAH É ÚNICO

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso! Desde aqui imploramos sua ajuda! Glória a Allah! Verdadeira Unidade a que nada antecede. Só Ele é o Primeiro! Glória a Allah! Só Ele está depois de sua Unidade. Só Ele é o Seguinte! Em respeito a Ele não há antes nem depois; nem alto nem baixo; nem perto nem longe, nem como, nem qual, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é como é. Ele é o Único sem necessidade de Unidade. Ele é o singular sem necessidade alguma de Singularidade.

Ele não está composto de nome, nem é nomeado, porque Ele é o nome e o nomeado. Não há nome mais além Dele. Não há mais nomeado que Ele. Por essa razão se diz que Ele é o nome e o nomeado.

Ele é o Primeiro sem anterioridade. Ele é o Último sem posteridade. Ele é Evidente sem exterioridade. Ele é Oculto sem interioridade. Porque não há anterior, nem posterior; não há exterior, nem interior, senão Ele.

É forçoso alcançar este Mistério a fim de não cair no erro dos que crêem nas encarnações da divindade. Ele não está em nenhuma coisa e nenhuma coisa está Nele. É preciso conhecer-Lhe, mas não é possível lográ-lo nem pela ciência, nem pela inteligência, nem pela imaginação, nem mediante a astúcia, nem pelos sentidos, nem pela visão exterior, nem pela visão interior, nem pela compreensão ou o raciocínio.

Ninguém, só Ele mesmo, pode ver-Lhe. Ninguém, só Ele mesmo, pode segurar-Lhe. Ninguém, só Ele mesmo, pode conhecer-Lhe. Ninguém salvo Ele pode ocultar-Lhe. Ele se vê e se conhece a Si mesmo. Seu véu impenetrável é Sua própria Unidade. Ele mesmo é seu próprio véu. Seu véu é sua própria existência. Sua Unidade Lhe vela de forma inexplicável.

Ninguém Lhe há visto, Lhe vê, nem poderá ver-Lhe jamais. Nem profeta, nem santo perfeito, nem anjo podem aproximar-se a Ele. Ele é seu Profeta. Ele é seu mensageiro. Ele é sua mensagem. Ele é sua Palavra. Ele se mantém idêntico a Si mesmo, consigo mesmo e para si mesmo, sem mediação ou causa exterior a Ele mesmo. Não há distinção de tempo, espaço ou natureza entre O que envia a mensagem, a mensagem e o destinatário da mensagem.

CAPÍTULO SEGUNDO:

SOBRE O CONHECIMENTO DE ALLAH

Sua existência está tão só nos textos da profecia. Em que pese tudo, só Ele existe e não pode deixar de existir, pois jamais veio à existência. Por isso disse o Profeta: “Quem se conhece a si mesmo conhece a seu Senhor”, e: “Eu conheço a meu Senhor, por meu Senhor”. O Profeta de Allah quis mostrar-te que tu não és tu, senão Ele: Ele e não tu; Ele não cabe em ti e tu não cabes Nele: Ele não sai de ti e tu não sais Dele.

Quero que entendas que tu não és, que tu não possuis qualidade alguma, que não existes e que não existirás jamais, nem por ti mesmo, nem por Ele, nem Nele nem com Ele. Tu não podes deixar de ser porque não és. Tu és Ele e Ele és Tu, sem mediação alguma e sem causa. Só se logras reconhecer em tua existência a qualidade do nada poderás conhecer a Allah.

Praticamente todos os iniciados afirmam que a Gnosis ou o conhecimento de Allah vem dado pela extinção da existência e pela extinção desta extinção. Mas esta opinião é falsa. A Gnosis não exige a extinção da existência e a extinção desta extinção, porque as coisas não têm nenhuma existência, e o que não existe não pode deixar de existir.

Dizer que uma coisa deixou de existir, que já não existe, é o mesmo que dizer que existiu. Mas se te conheces a ti mesmo e alcanças compreender que não existes e que, portanto, não podes deixar de existir, só então conheces a Allah.

Derivar o Conhecimento da extinção e da extinção da extinção é uma crença própria de idólatras, pois se admites isto, então admites que algo distinto de Allah pode gozar de existência. Mas admitir isto é o mesmo que negar-Lhe, e então és manifestamente culpável de idolatria.

O Profeta disse: “Quem se conhece a si mesmo, conhece a seu Senhor”. Se se admite a existência de algo distinto Dele, não se pode falar de sua extinção, porque não se pode falar da extinção do que necessariamente existe.

CAPÍTULO TERCEIRO:

QUE ALLAH NÃO TEM IGUAL

Tua existência é nada e “nada” não pode ser adicionado a coisa alguma, nem temporal nem intemporal. O Profeta disse: “Tu não existes agora, e tão pouco existias antes da criação do mundo”.

A palavra “agora” significa, tanto como presente absoluto, a eternidade sem fim. Mas Allah é a existência da eternidade sem começo e da eternidade sem fim, e Ele é a preexistência.

Allah é a existência da eternidade nestes três aspectos, e nem por isso deixa de ser absoluto. Se Ele não fosse assim, sua Solidão não existiria e não careceria de companheiro.

Mas é de necessidade racional, dogmática e teológica que Ele não tenha companheiro possível, pois Seu companheiro existiria por si mesmo e não pela existência de Allah e, em conseqüência, seria um segundo Senhor Allah, o qual é impossível. Allah não tem companheiro, nem semelhante nem igual.

Aquele que vê uma coisa com Allah, de Allah ou em Allah, fazendo-a independente de Allah e concedendo-lhe Distinção própria, converte essa coisa em companheiro de Allah, independente Dele por sua Distinção.

Aquele que afirma que uma coisa possa existir com Allah, quer seja existindo por si mesma ou por Ele, dizendo dela que por si mesma se extingue ou que por si mesma extingue sua existência, está muito distante de alcançar conhecer a si mesmo. Pois o que admite que algo distinto Dele pode existir, quer seja por si mesmo, ou por Ele, ou Nele, afirmando desse algo sua extinção, e a extinção de sua extinção, etc., entra num círculo vicioso. Tudo isto é próprio dos idólatras e nada tem a ver com o Conhecimento. O que crê nestas coisas é um idólatra e não conhece nada de Allah nem de si mesmo.

CAPÍTULO QUARTO:

SOBRE O CONHECIMENTO DA ALMA

Se alguém se pergunta por que meio é possível chegar a conhecer-se a si mesmo, ou seja, de que modo é possível chegar a conhecer a alma e o próprio Allah, a resposta é a seguinte:

O caminho até estes dois conhecimentos está encerrado nestas palavras: “Allah é e o nada com Ele. Ele é como foi”. Se alguém diz: “Eu vejo que minha alma e eu mesmo somos distintos de Allah, e não vejo que Allah seja minha alma”, a resposta é: quando o Profeta fala de “alma” ou de “ti mesmo”, não se refere à parte mental de tua existência particular, que à vezes é chamada “alma imperiosa”, ou “aquela que tende irresistivelmente ao mal”, ou “a alma que desaprova”, ou “a alma imóvel”, etc.

O Profeta disse: “Oh, Allah! Faça que veja as coisas tal como são”, entendendo por “as coisas” tudo que não é Allah, cujo nome seja exaltado!

Com isto o Profeta quis dizer: “Faz com que conheça o que não és Tu para que possa conhecer a verdade sobre as coisas, para que possa saber se as coisas são Tu ou distintas de Ti. Para que alcance conhecer se as coisas carecem de começo e de fim, ou quer se foram criadas e hão de desaparecer”. E Allah permitiu ao Profeta ver tudo o que não é Ele carece de existência, inclusive o “si mesmo”. E vendo as coisas tal e como são compreendeu que as coisas são em Allah, que estão mais além do tempo, do espaço e de todo atributo.

Quando dizemos “as coisas”, queremos dizer qualquer coisa, inclusive a alma, posto que também a alma se inclui na idéia geral de “coisa”, de tal maneira que, segundo o dito até aqui, se alguém se conhece a si mesmo, se alguém conhece sua alma, então conhece ao Senhor.

Tudo aquilo que tu crês que é distinto de Allah, em realidade é Allah, ainda que tu não o saibas. O vês, mas não sabes que O vês. Quando fores capaz de compreender que não és distinto de Allah, quando este mistéria te seja revelado, então compreenderás qual é teu fim, compreenderás que tua extinção não é possível, compreenderás que jamais deixaste de ser e que jamais deixarás de existir.

Compreenderás que todos os atributos de Allah são teus atributos, que teu exterior é o Seu, que teu interior é o Seu, que teu começo é o Seu e que teu fim é o Seu. Não há dúvida alguma nem possibilidade de erro nestas coisas: tuas qualidades são as Suas e tua natureza é a Sua. Mas nem por isso Ele se converte em ti ou tu te convertes Nele, pois todas estas coisas são certas sem necessidade de transformação, diminuição nem aumento algum.

“Cada morto salva Seu Rosto”, o exterior e o interior. Com estas palavras o Profeta quis mostrar que não existe nada distinto Dele, que toda coisa distinta Dele carece de existência. Assim, pois, tudo aquilo que aparece ante nós como distinto Dele se desvanecerá, pois nada há salvo Seu Rosto: só Seu Rosto permanece.

Considera este exemplo: quando um homem aprende uma coisa que antes ignorava, não põe fim com isso à sua existência, senão à sua ignorância. Sua existência segue idêntica a si mesma, sem mudança alguma.

A existência do sábio não tem sido acrescentada à do ignorante, nem se produziu nenhuma mescla entre a existência do sábio e a existência do ignorante. Assim, pois, não deves pensar que tua existência será extinta, porque com este penamento, considerando tua própria extinção, te ocultas a ti mesmo e te ereges em véu de Allah, em algo distinto de Allah, do que se segue que algo que não é Allah pode impor-se a Ele dirigindo até Ele seu olhar, o que é um engano e uma terrível mentira.

Já dissemos que a Unidade e a Singularidade são os únicos véus de Allah, e por isso o que logrou compreender a Realidade diz: “a mim a Glória, pois minha majestade é grande”. Este homem tão só pode abraçar um grau tão sublime após compreender que seus próprios atributos não são senão os atributos de Allah, e que seu ser íntimo é o ser íntimo de Allah, sem mediar transformação alguma de atributos nem transubstanciação, sem que nada haja entrado ou saído de Allah.

O que alcançou esta compreensão da Realidade, sabe que não se desvanece em Allah e que não permanece com Allah, e sabe também que sua alma, que ele mesmo, não existe segundo a existência anterior, pois não há mais alma nem existência que a Sua.

O Profeta disse: “Não insulteis ao Século [ou: ao secular], porque é Allah”. Com estas palavras quis dizer que a existência do Século é a existência de Allah, glorificado e magnificado seja! Sua majestade é demasiado grande para que lhe seja atribuído um companheiro, um semelhante ou um igual. Segundo uma tradição, o Profeta disse: “Allah disse: Servidor meu, estive enfermo e não me visitaste. Tive fome e não me deste de comer. Te pedi esmola e me negaste”. Com isto quis dizer que Ele era o enfermo e o mendicante. E se o enfermo e o mendicante podem ser Ele, também tu e todas as coisas da criação, acidentais ou substanciais, podem ser Ele. Quando se descobre o enigma de uma só partícula, se descobre o mistério de toda a criação, tanto interior como exterior.

CAPÍTULO QUINTO:

SOBRE OS INFINITOS ATRIBUTOS DE ALLAH

Compreenderás que não é que Allah haja criado todas as coisas, senão que tanto no mundo invisível como no visível não há nada salvo Ele, e que em nenhum dos mundos há uma só partícula de existência própria.

Compreenderás que Ele não é somente Seu Nome, senão que Ele é o nome e o que se nomeia. Compreenderás que Ele é a existência de ambos os mundos.

Compreenderás que Ele não criou todas as coisa de uma só vez, senão que “Ele é o Criador Sublime de todos os dias” pela expansão e ocultação de Sua existência e Seus atributos.

Compreenderás que Ele está mais além de toda coisa compreensível. “Porque Ele é o Primeiro e o Último, o Exterior e o Interior. Ele aparece em Sua unidade e se oculta em Sua singularidade. Ele é o Primeiro por Sua persistência. Ele é o Último por Sua eterna permanência. Ele é a existência do Primeiro e do Último, do Exterior e do Interior. Ele é Seu nome e o nomeado”.

Dado que Sua existência é inevitável, segundo a razão e segundo o dogma, também é inevitável a não existência de algo distinto Dele. Se aceitássemos que tudo o que se nos aparece como distinto Dele possui existência, estaríamos admintindo uma segunda existência, mas Sua existência faz impossível uma dupla existência, pois então esta segunda existência seria Seu semelhante. Assim, pois, nada há distinto Dele, pois Sua existência impede que o distinti Dele seja distinto Dele: o distinto Dele também é Ele, sem nenhuma diferença, nem interior nem exterior.

Sendo isto assim, Seu modo se ser admite um sem fim e um sem número de atributos, pois ao possuir estas qualidades, possui inumeráveis atributos. Tudo o que morre estritamente, perde todos seus atributos, tanto os maus como os bons. Assim mesmo, o que morre em sentido figurado, perde todos seus atributos, os bons e os maus. Allah, Bendito e Exaltado Seja, permanece sempre em Seu lugar. A natureza íntima de Allah está em Sua natureza íntima. Os atributos de Allah estão em Seus atributos. Por isso o Profeta, que Allah o proteja e o salve, disse: “Morrei antes de morrer”, ou seja: “Conheceis a vós mesmos antes de morrer”, e “Allah disse: o que Me adora se aproxima de Mim por suas obras até que Eu o ame. E quando o amo, Eu sou seu ouvido, Sua vista, Sua língua, Sua mão, ...”. O Profeta quis dizer: o que aniquila sua alma, ou seja, o que se conhece a si mesmo, compreende que sua existência é Sua existência, sem experimentar mudança alguma nem em sua natureza nem em seus atributos. Compreende que não há necessidade de que seus atriutos ou sua natureza sofram conversão alguma, pois compreende que sua verdadeira natureza não é ele mesmo, e que até então havia ignorado o que Ele é verdadeiramente.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Gnosis - "Porque o reino está dentro de vós” Lc 17.21

Os filósofos herméticos, os discípulos de Hermes Trismegisto, falam da antiga fé egípcia como sendo a religião da mente, que é, ao mesmo tempo, a pura Filosofia e a verdadeira Ciência.

Este tema é desenvolvido por G.R.S. Mead, secretário pes­soal de H.P. Blavatsky e um brilhante pesquisador, no seu livro The Gnosis of the Mind, que foi o primeiro volume de uma série chamada 'Echoes from the Gnosis' e do qual destaco alguns extratos, acrescentan­do notas e comentários.

"Na Religião da Mente não há oposição do coração e cabeça. Não é só um culto do intelecto, não é só um culto da emoção. É a senda da Devoção e Gnose inseparavelmente unidas".

O genuíno hermetismo reunia a busca mística com a busca intelectual.
E não existia oposição entre Religião e Ciência, como veio a ocorrer mais tarde. A transmutação da consciência, o buscar a luz e o experimentar a Realidade se complementavam.

Gnosis não é meramente conhecimento, como o sentido literal desta palavra grega indica. Gnosis é percepção espiritual, é a Sabedoria que é fruto do autoconhecimento. Já o gnosticismo é uma parte, um departamento de algo maior que inclui o conhecimento especulativo, mas que estende-se até a identificação com a "essência das coisas que são" termo usado por Pitágoras ao referir-se a Gnosis.

No capítulo, O Significado de Gnosis do livro 'Quests Old and New', G.R.S. Mead esclarece este ponto, enfatizando que "Gnosis não é co­nhecimento intelectual".

"Gnosis é, necessariamente, gnosis de alguma coisa, mas de quê?". Com base em antigos textos, diz o autor que "a resposta dada pela maioria de nossas fontes é idêntica: ela é finalmente gnosis de Deus".

Nisto há uma identificação com Clemente de Alexandria, nas Stromatas, que diz que Gnosis é o "conhecimento científico de Deus".

Na literatura trismegística Gnosis é chamada de "a religião da Mente". Mas deve ser entendida a palavra "mente" como a Mente Divina. No aspecto cósmico e metafísico Hermes ou Thot é Mercúrio, o deus da Sabedoria, o "Logos de Deus".

A religião da Mente também é a "verdadeira Filosofia" ou o "amor à Sabedoria", o que sugere uma forma elevada de misticismo.
No Poimandres a Mente Divina é chamada de Amor Divino. O amor à Sa­bedoria é imprescindível, como diria Pitágoras, para se chegar à "Sa­bedoria do Amor" ou, substituindo-se o termo, à "Sabedoria do Amor Divino".

H.P. Blavatsky, na Doutrina Secreta, indica que a "Sabedoria do Amor" ou Filosofia "significa atração e amor por algo oculto e subja­cente nos fenômenos objetivos, e o conhecimento de tudo isso"!

Assim, Filosofia implica amor e assimilação à Divindade. Encontramos, aqui, uma relação com a palavra Teosofia (Sabedoria Divina). Este termo surgiu a partir da Escola Neoplatônica de Alexandria e foi usado por Clemente de Alexandria. Salienta G.R.S. Mead que "Theosophia é somente um posterior e mais preciso termo para designar a extensão de idéias as quais foram reunidas no tempo de Pitágoras pela palavra Filosofia".

"A Gnosis da Mente é de uma natureza espiritual, pois ela é operada pelo princípio espiritual no homem" !

Num texto hermético lemos que a gnosis da Mente é a "visão das coisas divinas".

Mead acrescenta que "Gnosis não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, co­nhecimento de".
Este é o grande objetivo, conhecer "Deus", a Reali­dade em nós.

Em um outro texto de origem gnóstica, o 4º Evangelho, cujo manuscrito original surgiu junto à primitiva comunidade Joanina (Qumran), lemos que
"Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade" (4,24).
Em outra passagem é dada a sugestão:
"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (8,32), instrução no mais autêntico estilo gnóstico.

Isto sugere que a Mente é o instrumento e ao mesmo tempo é o "mistério dos mistérios", pois a Mente é o verdadeiro homem.

"A Mente não é somente aquilo que conhece, mas também o objeto de todo o conhecimento. Ela cria-se a si mesma para autoconhecer-se."

Nos diz a Filosofia Esotérica que a Mente é o veículo da alma espiritual e um reflexo da mente universal. Ela é "o Grande Iniciador, é o Mestre de todos os domínios". Desse modo, é mais clara a afirmação do autor quando diz que a Gnosis "inicia, con­tinua e termina no conhecimento do próprio Eu, o reflexo do Conhecimento do Ser Uno".

O "conhece-te a ti mesmo" é a essência do trabalho do aspirante à Gnosis. E o genuíno gnosticismo é a Filosofia Esotérica, gerada pela experiência e compreensão de Mentes Superiores. Então, não é errado dizer-se que a "religião da Mente" é a verdadeira Filosofia e a verdadei­ra Ciência.

Na Doutrina Secreta, H.P. Blavatsky diz que Gnosis é "a Ciência do Eu Superior" e o neoplatônico Jâmblico, em sua obra Sobre os Mistérios, refere-se à Teurgia como "a Ciência Sagrada". Mas não é só Ciência e Filosofia, também é Religião-Sabedoria.

Sendo a Mente "o verdadeiro homem", sua meta é ser pura consciên­cia e "seu destino final é tornar-se a Mônada das mônadas, ou a Mente de Deus". Por isso, alguém só é gnóstico quando "renasce" em espírito e inicia a Senda que o conduz à identificação com a Mente Una.

A manifestação histórica dessa Sabedoria, que floresceu especialmen­te entre os séculos I a.C. e II d.C., conhecida como "Gnosticismo" foi reflexo. Apresentou-se como Gnose Hermética ou Gnose Cristã e "pode-se aprender muito comparando-se os gnósticos herméticos com os gnósticos cristãos", porém são fragmentos da genuína Gnosis "ela é a única salvação para o homem, a Gnosis de Deus".

Não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da Mente individual com a Mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".

Este é o "Caminho para a Montanha" ou para o Olimpo e "a ignorân­cia de Deus é o verdadeiro ateísmo".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009


Mistérios do Cristianismo


Tendo visto que as religiões do passado reivindicaram uníssonas ter um lado oculto, ser custódias de "Mistérios", e que esta reivindicação foi endossada pela busca de Iniciação pelos homens mais eminentes, devemos agora averiguar se o Cristianismo fica fora deste círculo de religiões, sozinho sem uma Gnose, oferecendo ao mundo uma fé simples e não um conhecimento profundo. Se for assim, seria em verdade um fato triste e lamentável, provando ser o Cristianismo apenas destinado a uma só classe, e não a todos os tipos de seres humanos. Mas que isto não é assim, seremos capazes de provar além da possibilidade de dúvida racional.


E esta prova é a coisa que a Cristandade mais urgentemente necessita nestes tempos, pois até a própria flor da Cristandade está perecendo por falta de conhecimento. Se o ensino esotérico puder ser restabelecido e angariar estudantes pacientes e dedicados, não demorará muito para que o lado oculto também seja restaurado.
Discípulos dos Mistérios Menores se tornarão candidatos aos Maiores, e com a obtenção do conhecimento voltará também a autoridade do ensinamento. E de fato a necessidade é grande. Pois, olhando para o mundo em volta de nós, descobrimos que a religião no Ocidente está sofrendo da mesma dificuldade que teoricamente nós deveríamos esperar encontrar.
O Cristianismo, tendo perdido seu ensino místico e esotérico, está perdendo terreno entre grande número das pessoas mais altamente educadas, e a revivescência parcial durante os últimos anos é coincidente com a reintrodução de alguns ensinamentos místicos. É patente para todo estudante nos últimos 40 anos do século passado (o século XIX), que multidões de pessoas inteligentes e de alta moralidade tenham se desviado para fora das igrejas, porque os ensinamentos que recebiam lá ultrajavam sua inteligência e chocavam seu senso moral.
É inútil pretender que o agnosticismo disseminado deste período tenha suas raízes seja na falta de moralidade ou na deliberada perversidade de mente. Qualquer um que estudar com cuidado o fenômeno logo admitirá que homens de poderoso intelecto foram levados para fora do Cristianismo pela crueza das idéias religiosas apresentadas, as contradições nos ensinamentos das autoridades, nas concepções sobre Deus, o homem e o universo, que nenhuma inteligência treinada poderia chegar a admitir.
Nem pode ser dito que qualquer tipo de degradação moral esteja na raiz da revolta contra os dogmas da Igreja. Os rebeldes não eram ruins demais para a sua religião. Ao contrário, foi a religião que ficou ruim demais para eles.
A rebelião contra o Cristianismo popular foi devida ao despertar e crescimento da consciência; foi a consciência que se revoltou, assim como a inteligência, contra ensinamentos desonrosos tanto para Deus quanto para o homem. A razão para esta revolta jaz no gradual rebaixamento do ensinamento Cristão para uma alegada simplicidade, para que o mais ignorante pudesse ser capaz de compreendê-lo.
Os religiosos Protestantes assertaram sonoramente que nada deveria ser pregado exceto aquilo que pudesse ser compreendido, que a glória do Evangelho está em sua simplicidade, e que a criança e o inculto deveriam ser capazes de entendê-lo e aplicá-lo à vida.
Bastante verdadeiro, se com isto se quisesse dizer que existem algumas verdades religiosas que todos podem entender, e que a religião falha se deixa o mais inferior, o mais ignorante, o mais estúpido, de fora de sua influência elevadora.
Mas falso, completamente falso, se com isso se quiser dizer que a religião não tem verdades que o ignorante não possa compreender, que é uma coisa tão pobre e limitada a ponto de não ter nada para ensinar que esteja acima do pensamento do não inteligente ou acima do nível moral do degradado. Falso, fatalmente falso, se este for seu sentido; pois à medida que esta visão se espalha, ocupando os púlpitos e sendo proclamada nas igrejas, muitos homens e mulheres nobres, cujos corações quase se partem quando rompem sua ligação que os une à sua antiga fé, saem das igrejas, e deixam seus lugares ser preenchidos pelos hipócrita e pelo ignorante.
Eles ou passam para um estado de agnosticismo passivo, ou se são jovens e entusiastas para uma condição de agressão ativa, não acreditando que aquilo que poderia ser a coisa mais elevada ultraje tanto o intelecto como a consciência, e preferem a honestidade de uma descrença aberta ao embotamento do intelecto e da consciência sob imposição de uma autoridade em quem não reconhecem nada que seja divino.
Neste estudo do pensamento de nosso tempo vemos que a questão de um ensinamento oculto em conexão com o Cristianismo se torna de importância vital. O Cristianismo há de sobreviver como a religião do Ocidente? Viverá através dos séculos futuros, e continuará a ter uma parte na formação do pensamento das raças ocidentais em evolução? Se há de viver, deve recuperar o conhecimento que perdeu, e ter de novo seus místicos e seus ensinamentos ocultos; deve mais uma vez colocar-se como uma autoridade ensinando as verdades espirituais, revestido da única autoridade que vale alguma coisa, a autoridade do conhecimento.
Se estes ensinamentos forem recuperados, sua influência logo será vista nas novas e mais amplas concepções da verdade. Em primeiro lugar, o Cristianismo reaparecerá no "Lugar Santo", no Templo, de modo que todos que sejam capazes de receber suas linhas de pensamento divulgado em público; e em segundo lugar, o Cristianismo Oculto descerá outra vez ao Ádito, residindo detrás do véu que guarda o "Santo dos Santos", para dentro do qual só os Iniciados podem passar.
Então novamente o ensinamento oculto estará ao alcance daqueles que se qualificarem para recebê-lo, de acordo com as antigas regras, aqueles que desejam nos dias de hoje enfrentar as antigas exigências, feitas a todos os que hão de alegrar-se em conhecer a realidade e a verdade das coisas espirituais.
Mais uma vez voltemos nossos olhos para a história, para vermos se o Cristianismo foi único entre as religiões em não possuir nenhum conhecimento interno? Ou se assemelhou-se a todas as outras possuindo este tesouro oculto. Este problema é uma questão de evidência, não de teoria, e deve ser decidido pela autoridade dos documentos existentes e não pelo mero "assim se diz" dos Cristãos modernos.
É fato que tanto o Novo Testamento e os escritos da Igreja Primitiva fazem as mesmas declarações sobre a posse de tais ensinamentos pela Igreja, e sabemos a partir deles do fato da existência dos Mistérios chamados Mistérios de Jesus, ou Mistério do Reino, das condições impostas aos candidatos, algo da natureza geral dos ensinamentos dados, e outros detalhes.
Teria na verdade sido estranho se fosse diferente, quando consideramos as linhas do pensamento religioso que influenciaram o Cristianismo primitivo. Aliado aos hebreus, os persas, os gregos, tinto pelos antigos credos da Índia, profundamente colorido pelo pensamento sírio e egípcio, este último ramo do grande tronco religioso não poderia fazer outra coisa senão reafirmar as antigas tradições, colocando ao alcance das raças ocidentais todo o tesouro das tradições antigas. "A fé antigamente confiada aos Santos" teria na verdade sido esvaziada deste valor principal se, quando transmitida para o Ocidente, a pérola do ensinamento esotérico tivesse sido escamoteada.
A primeira evidência a ser examinada é a do Novo Testamento. Para nossos propósitos podemos colocar de lado todas as enfadonhas questões das diferentes redações e dos diferentes autores, que só podem ser julgadas por eruditos.
A erudição crítica tem muito a dizer sobre a idade dos manuscritos, sobre a autenticidade dos documentos, e assim por diante. Podemos aceitar as Escrituras canônicas como demonstração do que era acreditado na Igreja romana a respeito do ensino de Cristo e de Seus seguidores imediatos, e ver o que elas dizem sobre a existência de um ensinamento secreto transmitido somente a uns poucos.
Tendo visto as palavras postas na boca do próprio Jesus, e consideradas pela Igreja como de suprema autoridade, olharemos para os escritos do grande apóstolo Paulo; então consideraremos as declarações feitas por aqueles que herdaram a tradição apostólica e guiaram a Igreja durante os primeiros séculos. Ao longo desta ininterrupta linha de tradição e testemunho escrito pode ser estabelecida a proposição de que o Cristianismo tinha um lado oculto.
Veremos ainda que os Mistérios Menores de interpretação mística podem ser acompanhados através dos séculos até o início do século XIX, e que embora já não houvesse Escolas de Misticismo reconhecidas como preparatórias para a iniciação depois do desaparecimento dos Mistérios, ainda assim grandes Místicos, de tempos em tempos, alcançaram os degraus inferiores do êxtase por seus próprios esforços contínuos.
As palavras do próprio Mestre são claras e definidas, e foram, como veremos, citadas por Orígenes como referentes ao ensinamento secreto preservado na Igreja. "E quando estava sozinho, aqueles que estavam com Ele, os doze, faziam-Lhe perguntas sobre as parábolas. E Ele lhes disse: 'A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas a eles que estão de fora, todas estas coisas são dadas em parábolas' ".
E mais adiante:
"Com muitas parábolas semelhantes Ele pregava a palavra à multidão, pois só assim podiam ouvir. Mas sem parábolas Ele não lhes falava; e quando eles estavam sozinhos Ele explicava todas as coisas aos Seus discípulos" (Marcos, IV, 10, 11, 33, 34. Vide também Mateus, XIII, 11, 34, 36, e Lucas, VIII, 10).
Percebam as significativas palavras "quando estavam sozinhos", e a frase "aqueles que estão de fora". Também na versão de Mateus: "Jesus despediu a multidão, e entrou na casa; e Seus discípulos foram com Ele". Estes ensinamentos dados "na casa", os significados mais recônditos de suas instruções, considera-se que eram transmitidos de instrutor a instrutor. O Evangelho dá, note-se, as explicações místicas alegóricas, aquilo que chamamos Os Mistérios Menores, mas o significado mais profundo diz-se ter sido dado somente aos iniciados.
Novamente, Jesus diz até mesmo aos Seus apóstolos:
"Eu ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas ainda não sois capazes de as receber" (João, XVI, 12).
Algumas delas provavelmente foram ditas depois de Sua morte, quando Ele foi visto pelos discípulos "falando das coisas pertencentes ao Reino de Deus" (Atos, 1, 3).
Nenhuma delas foi registrada publicamente, mas quem pode acreditar que foram deixadas de lado ou esquecidas, e não preservadas como algo inestimável?
Havia uma tradição na igreja que Ele visitou Seus apóstolos durante um considerável período após sua morte, para dar-lhes instrução um fato a que faremos menção mais tarde e no famoso tratado Gnóstico Pistis Sophia, lemos: "chegou-se a dizer que, depois de ressuscitar dos mortos, Jesus passou onze anos falando com Seus discípulos e instruindo-os" (loc. cit., trad. G.R.S. Mead, I, I, 1).
Então vem a frase, que muitos gostam de amenizar e explicar evasivamente:
"Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas ao porcos" (Mateus, VII, 6)
Um preceito que é de aplicação geral, na verdade, mas foi considerado pela Igreja Primitiva referir-se aos ensinamentos secretos. Deveria ser lembrado que as palavras não tinham a mesma dureza naqueles dias como têm agora, pois a palavra "cães" significando o vulgo, o profano era aplicada por aqueles de um determinado círculo a todos os que eram de fora de seu grupo, seja por uma sociedade ou associação, ou por uma nação como pelos Judeus a respeito dos Gentios .
"Não é lícito tirar o pão das crianças e jogá-lo para os cães" - Marcos, VII, 27).
Algumas vezes era usada para designar aqueles que estavam fora do círculo dos Iniciados, e a encontramos aplicada neste sentido na Igreja; aqueles que, não tendo sido iniciados nos Mistérios, eram considerados como fora do "Reino de Deus", ou da "Israel espiritual", e tinham este nome aplicado a eles.
Havia diversos nomes, além do termo "O Mistério", ou "Os Mistérios", usados para designar o círculo sagrado de Iniciados ou ligados à Iniciação: "O Reino". "O Reino de Deus", O Reino dos Céus", A Vereda Estreita", "A Porta Estreita", "O Perfeito", "O Salvo", "Vida Eterna", "Vida", "O Segundo Nascimento", "O Pequenino", "A Criancinha".
O significado é tornado claro pelo uso destas palavras nos primeiros escritos Cristãos, e em alguns casos fora do círculo Cristão. Assim, o termo "O Perfeito" era usado pelos Essênios, que tinham três graus em suas comunidades: os Neófitos, os Irmãos, e os Perfeitos, sendo estes os Iniciados; e é empregado geralmente neste sentido nos antigos escritos. "A Criancinha" era o nome comum para um candidato recém iniciado, isto é, aquele que recém teve seu "segundo nascimento".
Quando passamos a conhecer este uso, muitas passagens de outro modo obscuras e rudes se tornam inteligíveis.
"Então um disse-lhe: Senhor, serão poucos os salvos? E Ele respondeu-lhes:
Esforçai-vos para entrar pela porta estreita; pois digo-vos, muitos procurarão entrar e não serão capazes" (Lucas, XIII, 23, 24).
Se isto for aplicado, do modo Protestante usual, à salvação do fogo eterno do inferno, a afirmação se torna incrível, chocante. Não se pode supor que nenhum Salvador do mundo possa afirmar que muitos procurarão evitar o inferno e entrar no céu, mas não serão capazes de fazê-lo.
Mas se aplicado à estreita porta de entrada na Iniciação e sua conseqüente salvação do renascimento, é perfeitamente verdadeiro e natural. E novamente:
"Entrai pela porta estreita; pois larga é a porta e amplo é o caminho que conduz à destruição, e muitos serão os que andarão neles; porque estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à vida; e poucos o encontrarão" (Mateus, VII, 13, 14).
A advertência que se segue imediatamente contra os falsos profetas, os mestres dos Mistérios tenebrosos, é muito própria em relação a aquilo. Nenhum estudante pode esquecer o som familiar destas palavras usadas no mesmo sentido em outras passagens. A "antiga vereda estreita" é familiar a todos; a senda "tão difícil de trilhar como se fosse o fio de uma navalha" (Kathopanishad, II, IV, 10, 11) já mencionado; a perambulação "de morte em morte" daqueles que seguem o florido caminho dos desejos, daqueles que não conhecem Deus; pois só se tornam imortais e escapam da bocarra da morte, da repetida destruição, aqueles homens que eliminaram todos os desejos (Brhadâranyakopanishad, IV, IV, 7).
A alusão á morte, é claro, é feita aos repetidos nascimentos da alma na existência material grosseira, considerada sempre como "morte" quando comparada à "vida" dos mundos mais elevados e sutis.
Esta "Porta Estreita" era o portal da Iniciação, através dele o candidato entrava no "Reino". E sempre foi e deve ser verdadeiro que somente uns poucos podem passar por aquele portal, embora miríades uma excepcionalmente "grande multidão, que ninguém poderia contar" (Apocalipse, VII, 9), e não uns poucos adentrem a felicidade do mundo celeste.
Assim também falou um outro grande Instrutor, há quase três mil anos atrás: "Dentre milhares de homens talvez só um se esforce pela perfeição; dentre os milhares que a obtém talvez só um Me conheça em essência" (Bhagavad Gita, VII, 3). Pois são poucos os Iniciados em cada geração, são a flor da humanidade; mas nenhuma frase terrível de condenação eterna é pronunciada nesta declaração sobre a vasta maioria da raça humana. Como Proclo ensinou (vide ante, p. 23), os salvos são os que escapam do ciclo da geração, ao qual está atada a humanidade.
Em conexão a isto podemos lembrar da história do jovem que veio a Jesus, e chamando-lhe de "Bom Mestre", perguntou como ele poderia obter a vida eterna a bem reconhecida liberação dos renascimentos através do conhecimento de Deus (deve ser lembrado que os Judeus acreditavam que todas as almas imperfeitas voltavam para viver novamente na Terra).
Sua primeira resposta foi o preceito exotérico usual: "Observa os mandamentos". Mas quando o jovem respondeu: "Todas estas coisas eu tenho observado desde minha juventude", então, para aquela consciência livre de toda a transgressão, veio a resposta do verdadeiro Mestre:
"Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus, depois vem e segue-me". "Se queres ser perfeito", ser um membro do reino, devem ser abraçadas a pobreza e a obediência. E então para os seus próprios discípulos Jesus explica que dificilmente um homem rico pode entrar no Reino dos Céus, sendo tal entrada mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha; pelos homens esta entrada não poderia ocorrer, por Deus todas as coisas são possíveis (Mateus, XIX, 16-26).
Somente Deus no homem pode ultrapassar aquela barreira. Este texto tem sido explicado de várias maneiras, sendo obviamente impossível conseguí-lo tomando seu significado superficial, que um homem rico não pode entrar em um estado de felicidade pós-morte.
Neste estado entram tanto o rico como o pobre, e as práticas universais dos Cristãos mostram que eles nem por um momento acreditam que a riqueza impeça sua felicidade após a morte. Mas se o significado real de "Reino dos Céus" for aplicado, temos a expressão de um fato simples e direto.
Pois aquele conhecimento de Deus que é Vida Eterna (João, XVII, 3) não pode ser obtido até que tudo o que for terreno seja abandonado, não pode ser aprendido até que tudo tenha sido sacrificado. O homem deve desistir não só da riqueza terrena, que daí em diante pode passa por suas mãos só para administrá-la, mas ele deve desistir também de sua riqueza interna, até onde ele a guardar como sua contra o mundo; antes que ele seja desnudado não poderá passar pela porta estreita. Este tem sido sempre um requisito para a Iniciação, e o voto do candidato tem sido sempre "pobreza, obediência, castidade".
O "segundo nascimento" é um outro termo bem conhecido para Iniciação; mesmo hoje na Índia as castas mais elevadas são chamadas "duas vezes nascidas", e a cerimônia que os torna duas vezes nascidos é uma cerimônia de Iniciação na verdade mera simulação, nos dias de hoje, mas segue "o padrão das coisas que está no céu" (Hebreus, IX, 23).
Quando Jesus está se dirigindo a Nicodemos, Ele fala que "a não ser que um homem nasça duas vezes, não pode ver o Reino de Deus", e este nascimento é dito como sendo aquele "da água do Espírito" (João, III, 3, 5); esta é a primeira Iniciação; uma ulterior é a "do Espirito Santo e do fogo" (Mateus, III, 11), o batismo do Iniciado em sua maturidade, assim como a primeira é a do nascimento, que o recebe como "uma Criancinha" que entra no Reino (ibid., XVIII, 3).
Quão totalmente familiares eram estas imagens entre os místicos dos Judeus é indicado pela surpresa demonstrada por Jesus quando Nicodemos se embaraçava com Sua fraseologia mística:
"Tu és um mestre de Israel e não conheces estas coisas?" (João, III, 10).
Um outro preceito de Jesus que permanece como "um ditado rude" para seus seguidores é:
"Sêde perfeitos, assim como vosso Pai no céu é perfeito" (Mateus, V, 48).
O Cristão comum sabe que possivelmente não conseguirá obedecer a este mandamento; cheio como está com as fragilidades e fraquezas humanas, como poderá ser perfeito como Deus é perfeito? Vendo a impossibilidade da meta posta diante dele, ele discretamente a põe de lado, e não pensa mais nisso. Mas vista como o esforço coroador, como o triunfo do Deus interno sobre a natureza inferior, a meta parece então dentro do alcance, e lembramos as palavras de Porfírio, sobre como o homem que atinge as "virtudes paradigmáticas é o Pai dos Deuses" e que nos Mistérios aquelas virtudes são adquiridas.
Paulo segue nas pegadas de seu Mestre, e fala exatamente do mesmo sentido, mas com uma explicitude e clareza maiores, como poderia ser esperado a partir de seu trabalho organizador na Igreja. O estudante deveria ler com atenção os capítulos II e III, e o versículo 1 do capítulo V da Primeira Epístola aos Coríntios, lembrando, à medida que lê, que as palavras são endereçadas aos membros batizados e comungantes da Igreja, membros plenos no sentido moderno, embora, descritos como bebês e carnais pelo Apóstolo.
Eles não eram catecúmenos ou neófitos, mas homens e mulheres que estava em plena posse de todos os privilégios e responsabilidades como membros da Igreja, reconhecidos pelo Apóstolo como estando apartados do mundo, e dos quais não esperava que se portassem como homens do mundo. Eles estavam, de fato, de posse de tudo o que a Igreja moderna dá aos seus membros. Resumamos as palavras do Apóstolo:
"Eu venho a vós trazendo o testemunho divino, e não vos enganando com sabedoria humana, mas venho com o poder do Espírito. Em verdade 'falamos sabedoria entre os que são perfeitos, mas não é sabedoria humana'. Falamos da sabedoria de Deus em mistério, mesmo a sabedoria oculta, que Deus ordenou antes que o mundo existisse, a qual nem os príncipes deste mundo conhecem. As coisas daquela sabedoria estão além do entendimento dos homens, 'mas Deus as revela a eles por Seu Espírito... as coisas íntimas de Deus', 'ensinadas pelo Espírito Santo'
(Note-se como isto se alinha com a promessa de Jesus em João, XVI, 12-14:
"Eu tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas ainda não as podeis suportar. Porém quando Ele, o Espírito da Verdade, vier, Ele vos guiará em toda a verdade... Ele vos mostrará as coisas do porvir... Ele as receberá de mim e as mostrará a vós".
Estas são coisas espirituais, a serem discernidas somente pelos homens espirituais, em quem está a mente de Cristo. 'E Eu, irmãos, não vos poderia falar como falo aos espirituais, mas falo como aos carnais até mesmo para os bebês em Cristo... Eles não eram capazes de o suportar, como vós não o suportaríeis ainda. Pois sois ainda carnais'. Como um mestre-construtor [um outro termo técnico nos Mistérios] Eu deixei as fundações' e 'vós sois o Templo de Deus, e o Espírito de Deus habita em vós'. 'Que um homem nos considere assim, como ministros de Cristo, e guardiães dos Mistérios de Deus' ".
Alguém pode ler esta passagem e tudo o que foi dito no resumo é para enfatizar os pontos importantes sem reconhecer o fato de que o Apóstolo possuía uma sabedoria divina dada nos Mistérios, que seus seguidores coríntios ainda não eram capazes de receber? E notem a recorrência de termos técnicos: a "sabedoria", a "sabedoria de Deus em mistério", a "sabedoria oculta", conhecida somente pelos homens "espirituais", falada somente entre os "perfeitos", sabedoria da qual eram excluídos os não-"espirituais", os "bebês em Cristo", e só conhecida dos "mestres construtores", os "guardiães dos Mistérios de Deus".
Repetidas vezes ele se refere a estes Mistérios. Escrevendo aos Cristãos de Éfeso ele diz que "pela revelação", pelo desvelamento, tinha sido feito "sabedor dos Mistérios", e daí seu "conhecimento dos mistérios de Cristo"; todos podiam saber sobre a "irmandade dos Mistérios" (Efésios, III, 3, 4, 9).
Sobre este Mistério, ele repete aos colossenses que foi "feito ministro", "o Mistério que esteve ocultos das idades e das gerações, mas que agora era tornado manifesto aos Seus santos"; não ao mundo, nem mesmo aos Cristãos, mas somente aos Santos. Para eles era revelada "a glória deste Mistério"; e o que era isso?
"Cristo em vós" uma frase significativa, que veremos, logo, pertencer à vida do Iniciado; assim finalmente todo homem deve aprender a sabedoria, e se tornar "perfeito em Cristo Jesus" (Colossenses, i, 23, 25-28. Mas Clemente, em seu Stromata, traduz "todo homem" como "o homem todo". Vide o Livro V, cap. X). A estes Colossenses ele ordena orar "para que Deus nos abra a porta da profecia, para falar o Mistério de Cristo" (Colossenses, IV, 3), uma passagem à qual Clemente se refere como sendo uma em que o Apóstolo "revela claramente que o conhecimento não pertence a todos" (Clemente de Alexandria, Stromata, Livro V, cap. X; A.-N.C.L.
Alguns ditos adicionais dos Apóstolos serão encontrados nas citações de Clemente, mostrando qual significado tinham para as mentes daqueles que sucederam os Apóstolos, e que viviam na mesma atmosfera de pensamento). Da mesma forma também escreve ao seu bem-amado Timóteo, ordenando-lhe selecionar seus diáconos dentre aqueles que "mantinham o Mistério da fé em uma consciência pura", aquele "grande Mistério da Piedade", que ele havia aprendido (I Timóteo, III, 9, 16), cujo conhecimento era necessário para os instrutores da Igreja.
Porém Timóteo está em uma posição importante como representante da geração seguinte de instrutores Cristãos. Ele foi discípulo de Paulo, e foi indicado por ele para guiar e dirigir uma porção da Igreja. Ele havia sido, sabemos, iniciado nos Mistérios pelo próprio Paulo, e é feita referência a isto, e os termos técnicos mais uma vez servem como chave. "Esta função te delego, meu filho Timóteo, de acordo com as profecias que foram feitas sobre ti" (I Timóteo, I, 18), a bênção solene do Iniciador, que admitia o candidato; mas o Iniciador não estava sozinho: "Não descureis o dom que está em vós, o qual vos foi dado pela profecia, abandonando o Presbitério" (ibid., IV, 14) dos Irmãos Maiores.
E ele lhe adverte preservar aquela "vida eterna, à qual também fostes chamado, e professastes um bom voto diante de muitas testemunhas" (ibid., VI, 13) o voto do novo Iniciado prestado na presença dos Irmãos Maiores e da assembléia dos Iniciados. O conhecimento dado então era a incumbência sagrada sobre a qual Paulo fazia tanta ênfase: "Oh Timóteo, preserva aquilo que te foi confiado" e não o conhecimento comumente possuído pelos Cristãos, a respeito do qual não havia obrigação nenhuma sobre Timóteo, mas o depósito sagrado confiado a ele como Iniciado, e essencial ao bem da Igreja.
Paulo mais tarde volta a isto, enfatizando a suprema importância do assunto de um modo que teria sido exagerado se o conhecimento fosse a propriedade comum dos homens Cristãos:
"Guarda bem a forma das sérias palavras que ouvistes de mim... Aquela boa coisa que te foi confiada, guarda-a pelo Espírito Santo que reside em nós" (II Timóteo, I, 13,14) uma advertência tão séria quanto seria possível por lábios humanos. Mais ainda, era seu dever prover a devida transmissão deste depósito sagrado, para que pudesse transmitido ao futuro, e a Igreja nunca fosse deixada sem Instrutores: "As coisas que ouvistes de mim entre muitas testemunhas" os ensinamentos orais sagrados dados na assembléia dos Iniciados, que testemunhava a precisão da transmissão, "confia o mesmo a homens dignos, que sejam também capazes de ensinar aos outros" .
O conhecimento ou, se preferirmos o termo, a suposição de que a Igreja possuía estes ensinamentos ocultos lança uma torrente de luz sobre estas diversas passagens de Paulo sobre si mesmo, e quando as reunimos, temos um perfil da evolução do Iniciado. Paulo diz que embora ele já estivesse entre os perfeitos, os Iniciados, pois ele diz:
"Que nós, portanto, que somos perfeitos, tenhamos esta mentalidade" - ele ainda não tinha "atingido", ainda não era em verdade inteiramente "perfeito", pois ainda não havia recebido Cristo, ele ainda não havia atingido o "alto chamado de Deus em Cristo", "o poder de sua ressurreição, e a companhia de seus sofrimentos, sendo tornado conforme à sua morte"; e ele estava tentando, diz, "se por algum meio puder alcançar a ressurreição dos mortos" (Filipenses, III, 8, 10-12, 14, 15).
Pois esta era a Iniciação que libertava, que fazia do Iniciado um Mestre perfeito, o Cristo Ressurrecto, libertando-o finalmente dos "mortos", da humanidade presa ao ciclo da geração, dos laços que atavam a alma à matéria grosseira. Novamente aqui temos um número de termos técnicos, e mesmo o leitor superficial deveria perceber que a "ressurreição dos mortos" mencionada aqui não poderia ser a ressurreição comum dos modernos Cristãos, suposta ser inevitável para todos os homens, e portanto não requerendo obviamente nenhuma luta especial da parte de ninguém para conseguí-la.
De fato a própria palavra "conseguir" estaria fora de lugar ao referir-se a uma experiência humana universal e inevitável. Paulo não poderia evitar esta ressurreição, de acordo com o ponto de vista dos Cristãos modernos. Qual seria então a ressurreição a ser conseguida para a qual ele estava fazendo tantos esforços? Uma vez mais a única resposta vem dos Mistérios. Neles o Iniciado se aproximava da Iniciação que libertava do ciclo do renascimento, o ciclo da geração, era chamado de "o Cristo sofredor", ele compartilhava dos sofrimentos do Salvador do mundo, era crucificado misticamente, "tornado conforme à Sua morte", e então conseguia a ressurreição, a companhia do Cristo glorificado, e, depois, a morte já não tinha poder sobre ele
Apocalipse,
"Eu sou Aquele que vive, esteve morto e ressurgiu, e vive eternamente. Amen").
Este era o "prêmio" em direção ao qual o Apóstolo estava se esforçando, e ele urge "todos os que são perfeitos", não o crente comum, para que também se esforcem deste modo. Que não se contentem com o que já obtiveram até então, mas que se esforcem por mais.
Esta semelhança com Cristo do Iniciado, de fato, é o próprio trabalho dos Mistérios Maiores, como veremos em maior detalhe quando estudarmos "O Cristo Místico". O Iniciado já não devia ver o Cristo como fora de si mesmo. "Embora tenhamos conhecido o Cristo na carne, deste modo já não o conhecemos" (II Coríntios, V, 16).
O crente comum havia sido "revestido de Cristo, assim como todos de vós que fostes batizados em Cristo se revestiram de Cristo" (Gálatas, III, 27). Então eles se tornavam os "bebês em Cristo", a quem já se fez referência, e Cristo era o Salvador de quem eles buscavam ajuda, conhecendo-o "na carne". Mas quando eles haviam vencido a natureza inferior e já não eram "carnais", então eles entrariam em um caminho mais elevado, e se tornariam eles mesmo Cristo.
Isto que ele mesmo já havia conseguido era o desejo do Apóstolo para os seus seguidores. "Meus filhos, de quem sofro as dores do parto até que Cristo seja formado em vós" (Gálatas, IV, 19). Ele já era seu pai espiritual, "tendo-vos gerado através do evangelho" (I Coríntios, IV, 15). Mas agora ele era como aquele que gera "novamente", como se fosse sua mãe para levá-los ao segundo nascimento.
Então o Cristo Infante, a Santa Criança, nascia na alma, "o homem oculto no coração" (I Pedro, III, 4), e o Iniciado se tornava assim "a Criancinha"; daí por diante ele devia viver em sua pessoa a vida do Cristo, até que se tornasse o "homem perfeito", crescendo "até a medida da plena estatura de Cristo" (Efésios, IV, 13). Então ele, como Paulo estava fazendo, repetia em sua própria carne os sofrimentos de Cristo (Colossenses, I, 24) e sempre tinha "junto a si a morte do Senhor Jesus", para que pudesse dizer com verdade "sou crucificado com Cristo; não obstante eu vivo; embora não seja eu, mas é Cristo que vive em mim" (Gálatas, II, 20).
Assim o Apóstolo estava ele mesmo sofrendo; assim ele descrevia si próprio. E quando a luta termina, quão diferente é o tom calmo de triunfo sobre árduos esforços dos primeiros anos: "Agora estou pronto para ser oferecido, e o tempo de minha partida está próximo. Eu lutei a boa luta, terminei minha carreira, guardei a fé; por isso me espera uma coroa de justiça" (II Timóteo, IV, 6-8).
Esta era a coroa dada " a ele que vencera", de quem é dito pelo Cristo Ressurrecto: "Eu farei dele um pilar no Templo de meu Deus; e dali não sairá mais" (Apocalipse, III, 12). Pois após a "Ressurreição" o Iniciado se tornava o Homem Perfeito, o Mestre, e já não sai do Templo, mas dali serve e guia os mundos.
Pode ser bom assinalar, que o próprio Paulo sanciona o uso do ensinamento teórico místico na explicação dos eventos históricos registrados nas escrituras. A história escrita ali não é considerada por ele um mero registro de fatos, que ocorreram no plano físico.
Verdadeiro místico, ele via nos eventos físicos as sombras das verdades universais sempre ocorrendo nos mundos mais altos e internos, e sabia que os eventos escolhidos para serem preservados nos escritos ocultos eram aqueles mais típicos, cuja explicação serviria à instrução humana.
Assim ele toma a história de Abraão, Sarai, Hagar, Ismael e Isaac, e dizendo que "aquelas coisas são alegorias", ele passa a dar a interpretação mística (Gálatas, IV, 22-31). Referindo-se à fuga dos israelitas do Egito, ele fala do Mar Vermelho como um batismo, do maná e da água como comida e bebida espirituais, da rocha de onde a água fluiu como sendo o Cristo (I Coríntios, X, 1-4).
Nesta visão dos escritos sagrados não é alegado que os eventos registrados não tenham tido lugar, mas apenas que sua ocorrência física era coisa de menor importância. Uma explicação como esta é o desvelar dos Mistérios Menores, o ensinamento místico que é permitido dar ao mundo. Não é, como muitos imaginam, um mero jogo de imaginação, mas é a atividade de uma verdadeira intuição, vendo os protótipos nos céus, e não somente as sombras lançadas por eles na tela do tempo terreno.

Raul Branco