Budismo é a tradição formada a partir das práticas ensinadas por Sidarta Gautama 563 ou 623 a.C. em Lumbini, Nepal, na época Índia, conhecido como Buda Shakyamuni "sábio dos Shakyas", é a figura-chave do budismo há pelo menos 2.500 anos.

De acordo com a Tradição Hindu, Buda é um Avatar de Vishnu (Deus Supremo), baseados nas escrituras Upanishads, Vishnu e Bhagavad Purana. A palavra Buda vem de Bodh, que significa despertar.

Ao despertar, se iluminar Buda pensa que isso não poderia ser compartilhado, porém Brahma teria solicitado que ele ensinasse o que havia conquistado, porque alguns seres poderiam reconhecer o que ele reconheceu.

Os ensinamentos atribuídos a Gautama foram repassados através da tradição oral, ensina as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. A prática central de quase todas as linhas budistas é a meditação, método e resultado para uma familiarização e entendimento sobre a própria mente, práticas para controle do ego, e o despertar para iluminação. Buda dizia que seu ensinamento ia contra o sistema, ao contrariar os infinitos desejos egoístas do homem, "Atingi esta Verdade que é profunda, difícil de ver, difícil de compreender, compreensível somente aos sábios, os homens submetidos pelas paixões e cegos pela obscuridade não podem ver essa Verdade, que vai contra o sistema, porque é sublime, profunda, sútil e difícil de compreender". A filosofia sobre o caminho e os resultados variam conforme a escola.

A transmissão do Dharma do Buddha no Tibet ocorreu em dois períodos principais. Houve a primeira difusão do Dharma, por volta de 600 d.C, que foi imensamente potencializada, pelo Guru Rinpoche Padmasambhava. Essa primeira propagação do Dharma no Tibet, das traduções das escrituras em sânscrito para a língua tibetana, e ensinamentos e transmissões dadas por Guru Rinpoche, veio a formar a “Antiga Tradição” (tib. nyingma), Escola Nyingma.

Outros Mestres da Índia como o Pandita Atisha e o tibetano Tsongkapha vieram posteriormente ensinar no Tibet e formaram os pilares da segunda propagação do Dharma no Tibet, e que deu origem a “Nova Tradição” (tib. sar ma) através das Escolas Gelug. As escolas do budismo tibetano, baseadas nas transmissões das escrituras indianas para o platô tibetano, são achadas tradicionalmente no Tibet, Butão, norte da Índia, Nepal, Mongólia.

A maioria dos praticantes nesses países podem ser classificados como vajrayanas, que é um conjunto de escolas budistas esotéricas. A Tradição Vajrayana, é a fonte conhecida para se praticar o budismo original indiano, que foi praticamente erradicado de onde se originou, utiliza meios hábeis como o caminho acelerado possibilitando a iluminação. O nome vem do sânscrito e significa "veículo de diamante", possuem como modelo principal a figura do Lama. O objetivo da prática é se tornar um Bodhisattva.

Se você está numa praia e enche a mão de areia.
Esse tanto de areia em relação à areia da praia é a proporção de felizardos que têm contato direto com os ensinamentos budistas.
Se você abre a mão e deixa cair a areia, os grãos que sobram são os que estão envolvidos com a escola Mahayana.
Depois de bater as mãos para tirar a areia que resta, não sobra quase nada.
Esses últimos grãos, que quase não se vê, são os estudantes do budismo Vajrayana, raros e preciosos.

Ser budista.

Tenha confiança em seu próprio potencial espiritual, em sua habilidade de encontrar seu próprio caminho único.

Aprenda com outros resolutamente e use o que julgar útil, mas também aprenda a confiar em sua própria sabedoria interior.

Tenha coragem. Esteja desperto e consciente.

Lembre-se que o budismo não é sobre ser budista, ou seja, obter uma nova etiqueta de identidade.

Nem é sobre colecionar conhecimentos cerebrais, práticas e técnicas.

De maneira última, é sobre abandonar todas as formas e conceitos, se tornar livre e despertar.

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Gnose, tem por origem etimológica o termo grego "gnosis", que significa "conhecimento". Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental.


A palavra "Gnosis" geralmente é traduzida por "conhecimento", mas a Gnose não é, primordialmente, um conhecimento racional; a língua grega distingue entre o conhecimento científico (ele conhece matemática) e, reflexivo (ele se conhece), experiência que é Gnose, percepção direta daquilo que é, percepção interior, um processo intuitivo de conhecer-se a si mesmo.

A Sabedoria ultrapassa o intelecto, através da intuição, contempla. A Sabedoria faz com que a Verdade seja inteligível. O intelecto usa a razão e o conhecimento discursivo.

Gnose é usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua Essência Eterna, maravilhosa, pela via do coração.


Gnose é uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva.

Nós Gnósticos usamos de explicações metafísicas e 'mitologicas' para falar da criação do universo e dos planos espirituais, mas nunca deixamos de relacionar esse mundo externo e mitologico a processos internos que ocorrem no homem. Hoje a palavra mito, significa alguma coisa inveridica, irreal ou ficticia. Entretanto ela deriva do vocábulo grego mythos, que em seu uso original significa uma explicação da realidade que lhe confere significado.

GNOSTICISMO: Movimento que provavelmente se originou-se na Ásia Menor. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Índia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos do Helenismo, Zoroastrismo, do Hermetismo, do Hinduísmo, do Budismo Tibetano, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo primitivo. Possuíam uma linguagem técnica característica e ênfase na busca da sintonia interior com essa Gnosis, essa Sabedoria Divina, sem intermediários, um conhecimento do Divino por experiência própria.

Enquanto existir uma luz na individualidade mais recôndita da natureza humana, enquanto existirem homens e mulheres que se sintam semelhantes a essa luz, sempre haverá Gnósticos no mundo


"Não escrevo para aqueles que estão imbuídos de preconceitos, que compreendem e sabem tudo, mas que no entanto não Sabem nada, pois eles já estão satisfeitos e ricos, mas sim para os simples como eu, e assim me alegro com meus semelhantes."

Jacob Boehme




quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Parábola do Filho Pródigo


Nossa breve jornada pelo cristianismo primitivo não foi motivada por saudosismo, nem pela intenção Deixemos que o evangelista nos conte, mais uma vez, sua linda mensagem de esperança para todos nós, peregrinos há muito desgarrados e humilhados em terra distante, que ansiamos voltar à Casa do Pai.


“Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa. E gastou tudo. Sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar privações. Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou para seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas (cascas) que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E caindo em si, disse: ‘Quantos servos de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou-me embora, procurar o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados. Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’ E começaram a festa. Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recuperou com saúde’. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!’ Mas o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver, ele estava perdido e foi reencontrado!” (Lc 15:11-32).
Para a maior parte dos cristãos, que por diversas vezes ouviram referências a essa parábola em sermões dominicais, a estória significa pouco mais do que a infinita generosidade do Pai, que recebe de braços abertos o filho pródigo que saiu de sua Casa para entregar-se à devassidão, dissipando sua herança. É mais uma lembrança de que o erro não compensa, mas que, em última análise, se tivermos a desgraça de cair no pecado (e quem não caiu incontáveis vezes?) podemos, por meio da verdadeira contrição, ser perdoados e recebidos de novo pelo Pai. Essa interpretação singela tem seus méritos e satisfaz a grande massa dos fiéis. Mas existe muito mais riqueza por trás dessa parábola, que é um verdadeiro exemplo de quantos ensinamentos podem estar velados na linguagem do simbolismo.
O respeitado pesquisador e autor Geoffrey Hodson afirma que essa parábola pode ser interpretada tanto do ponto de vista macro como do microcósmico, pois todas as alegorias apresentadas na Linguagem Sagrada são passíveis de diferentes níveis de interpretação. Isso deve-se a natureza essencial da unidade de toda a manifestação, desde o infinitamente grande até o infinitamente pequeno, tanto nos planos mais elevados como nos mais grosseiros. Esse é o sentido do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Visto sob outro ângulo, o homem é aquele ser em quem o espírito mais elevado e a matéria mais densa estão unidos pela mente.
Segundo aquele autor, a parábola do Filho Pródigo descreve, de forma simplificada, o processo cíclico de descida consciente da vida do Logos à matéria e seu eventual retorno à origem, à Casa do Pai, devidamente enriquecida pela experiência do processo, como simbolizado pela boa vinda concedida pelo Pai a seu filho. A parábola oferece um magnífico cenário, onde os atores e as principais etapas da jornada da alma, segundo a interpretação de G. Hodson, podem ser apresentados resumidamente da seguinte forma:

O Pai. Representa o eterno e infinito Genitor, do qual o temporário e o finito são gerados. Ele é causa primordial de toda a manifestação, sendo uma Existência ilimitada e incognoscível.
O Filho mais Velho. No sentido macrocósmico, personifica os elohim, as inteligências criadoras ou arcanjos, que nunca perdem a consciência da unidade com sua Fonte divina, permanecendo, portanto, em casa. No sentido microcósmico, representa a Centelha Divina no homem, ou a Mônada humana, que também permanece em unidade com a Fonte divina. As Mônadas são provavelmente os anjos que estão sempre voltados para a Divina Presença.
O Filho Pródigo. Macrocosmicamente, representa o aspecto imanente do Logos, a vida divina interior que embarca na grande peregrinação pelos diferentes planos da manifestação. No seu sentido microcósmico, representa o raio projetado da Mônada que, no seu devido tempo, manifesta-se a nível da inteligência abstrata como a alma espiritual em sua veste imortal de luz, o Cristo interior. Ele é o Deus peregrino que habita no homem, seu Eu Superior, que passa por infindáveis experiências ao longo de suas muitas encarnações na Terra.
A Casa do Pai. A consciência do Logos do Universo (o Pai) está estabelecida em seu mundo espiritual mais elevado. Alegoricamente, o Pai permanece em casa com as inteligências criativas cósmicas, o filho mais velho. Essa é a residência celestial do ‘Pai que está nos Céus’.
Ele toma a sua parte da herança e parte em viagem. A ‘parte da herança’ representa a porção de vida cósmica alocada a uma unidade individual em manifestação. Esse evento é, às vezes, descrito como a ‘queda dos anjos’, dando uma conotação infeliz ao processo, pois a saída da Casa do Pai é uma parte essencial do Plano Divino. Um símbolo mais apropriado é a plantação de sementes, que são enterradas na escuridão do solo, de onde germinarão, no seu devido tempo, quando regadas com a água da vida e fortalecidas com a luz do espírito. Num sentido pessoal, a ‘herança’ refere-se aos poderes armazenados no Eu Superior. Quando o homem chega ao ‘país distante’, isto é, manifesta-se no mundo das formas, esses poderes serão expressos de inúmeras maneiras, algumas temporariamente infrutíferas, insatisfatórias, daí a parábola dizer que o filho dissipou a herança de forma ‘pródiga’.
A região longínqua. O país distante é o espaço virgem sobre o qual o novo Sistema Solar será construído, ou como diziam os gnósticos, o Grande Abismo. No sentido microcósmico, o país distante é o campo evolutivo, incluindo, portanto, os planos mental, emocional, etérico e físico, dos quais o corpo físico, por ser o mais denso, é geralmente tido como a prisão do Ego imortal.
Dissipar a herança. Refere-se à Eterna Oferenda pela qual o Logos sacrifica Sua essência espiritual para que Seu Universo possa existir. É a crucificação voluntária do Cristo cósmico, o Filho Pródigo. Como se trata de um processo de limitação da vida universal da Deidade do universo, vincula-se alegoricamente como a dissipação da herança.
Uma grande fome. No sentido macrocósmico, representa a inércia que resulta do equilíbrio temporário entre Espírito e matéria, quando é alcançado o ponto mais denso da manifestação. Microcosmicamente, refere-se à ausência de compreensão espiritual da mente concreta durante a etapa inicial da peregrinação da alma, quando não recebe conscientemente nenhum impulso espiritual, mas vive para a gratificação da personalidade de forma deliberadamente egoísta e sensual. Fome e sede são também símbolos do anseio pela verdade. Embora a fome e a sede físicas possam ter conseqüências desastrosas, a fome e a sede da alma são auspiciosas, pois representam o prelúdio da busca da verdade.
Ele se emprega para cuidar de porcos. O porco é um símbolo dos instintos e desejos mais baixos e sensuais do homem. Isso significa que o filho pródigo chegou ao fundo do poço da materialidade, sensualidade e depravação.
Ele alimenta os porcos. No sentido macrocósmico, a vida una (o filho pródigo) vitaliza as formas materiais grosseiras (os porcos). Sem essa alimentação interior eles morreriam de inanição (fome). De forma similar, a Mônada, como microcosmo, supre o poder e ‘alimenta’ espiritualmente a alma que, por sua vez, inspira e vitaliza a personalidade. Na aplicação pessoal do símbolo, alimentar os porcos significa dar energia vital para as tendências animalescas, indicativas da vulgaridade que ocorre no ponto mais denso da jornada evolutiva.
Ele queria matar a fome com as cascas jogadas aos porcos. As cascas são os revestimentos físicos exteriores, ou as formas temporárias. Comer cascas, então, simboliza existência e experiência no interior da forma externa mais densa. Para o intelecto humano, essa fase da jornada corresponde ao estágio evolutivo em que a mente é incapaz de apreender as idéias e verdades abstratas e espirituais, daí alimentar-se com as idéias concretas. A percepção de que as cascas, ou a natureza efêmera das formas exteriores, são inteiramente insatisfatórias produz um anseio pelas realidades permanentes interiores. Essa é a verdadeira ‘fome’ por Deus, o anseio da alma pela união com sua verdadeira Fonte.
Mas ninguém lhas dava. A fome ainda perdura. A descoberta da realidade pelo homem é acompanhada pela compreensão de que a fome da alma nunca poderá ser satisfeita por ‘comida’ do exterior, e que a peregrinação da alma não terminará enquanto houver dependência de apoios externos. Esse é também um indício da solidão do místico.

Os servos de seu Pai comem enquanto ele passa fome. O ciclo de descida à matéria está chegando ao fim, pois o filho pródigo pensa em seu lar. O místico, faminto por alimento espiritual, contempla a casa do Pai, os seres espirituais e as inteligências criativas, os servos do Supremo, que têm comida em abundância. O homem que começa a despertar espiritualmente, percebe lentamente que somente através do serviço ao próximo poderá encontrar o caminho de casa e trilhá-lo até o fim. Somente pelo serviço o homem pode tornar-se Senhor do Todo. Está implícita a necessidade de humildade e a subserviência da personalidade ao Eu espiritual.
Vou-me embora. Macrocosmicamente, o ponto mais baixo da involução foi atingido e a viagem de retorno começa. Microcosmicamente, o filho pródigo fala pela primeira vez, indicando que a vida universal no homem atingiu a autoconsciência e a individualidade, capacitando-o a entrar deliberadamente no caminho de retorno. Seu arrependimento expressa um estágio de maturidade no qual descobre que nenhum objeto exterior pode satisfazer espiritualmente a alma, ou ‘salvar’ qualquer ser humano. A busca da satisfação começa a ser direcionada para o interior e para cima. Simbolicamente, o filho pródigo arrepende-se de seus erros anteriores, descobre o verdadeiro caminho e começa a jornada de retorno.
E ele partiu e foi ao encontro de seu Pai. Ainda que a longa e árdua jornada de volta à casa do Pai não seja explicitada (a via normal ou o caminho acelerado), a meta é atingida finalmente. Tendo escolhido as realidades permanentes, o homem entra no Caminho do Discipulado e acelera a viagem. A ilusão da separatividade é superada, e a consciência universal, a condição da Casa do Pai, é atingida.
Seu Pai corre para recebê-lo, dando calorosas boas vindas e o beija. Quando o caminho de retorno é trilhado, num certo ponto ocorre um afluxo de poder divino. A partir de então, para cada passo que o aspirante dá em direção ao alto, seu Mestre dá dois passos em sua direção, alegoricamente seu Pai corre para abraçá-lo. No sentido iniciático, o beijo simboliza a descida da força monádica sobre o candidato, por meio da voz e do tirso do hierofante na iniciação. Nesse sentido, o beijo representa a união das energias com as energias espirituais no centro da cabeça do iniciado, conferindo iluminação.
O filho pródigo confessa ser indigno. A confissão metafórica revela que, quando o ciclo evolutivo está prestes a terminar, o peregrino compreende o quanto a descida à matéria macula a expressão do Espírito. Da mesma forma, quando o Eu Superior alcança um certo grau de autoconsciência e é capaz de transmitir esse fato à mente e ao cérebro do homem mortal, então a motivação e a conduta não-espirituais anteriores são deploradas e renunciadas. A adoção natural dessa atitude de reconhecimento, renúncia e entrega marca uma fase muito importante no desenvolvimento do homem.
O Pai disse: trazei a melhor veste. Vestimenta nova é símbolo de um estado de consciência renovado e expandido. A vestimenta existente expressa as limitações usuais da personalidade como egoísmo, preconceito, intolerância, cegueira espiritual e outros grilhões da mente, que devem ser descartados para que uma nova fase evolutiva possa ser adentrada. Geralmente, uma veste nova ou lavada significa um novo corpo para a consciência, uma vez terminada uma etapa de experiência de vida no mundo. Agora a Veste do Filho é do melhor tecido, o mais sutil, a veste de Luz, ou Manto de Glória.
O Pai disse: ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. O círculo (anel), é o símbolo da eternidade e do poder e sabedoria eternos. Um ciclo foi terminado, e o anel indica que outro deverá ser começado, pois a progressão cíclica não tem começo concebível nem fim imaginável. O anel simboliza também os poderes adquiridos com o término do ciclo anterior. A colocação de sandálias nos pés complementa o simbolismo do anel no fim de um ciclo. A substância macrocósmica, especialmente a mais densa, é comumente representada por calçados, pois esses são colocados na parte inferior do corpo. O Ser está agora capacitado a entrar num novo ciclo devidamente aparelhado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus pretendeu o mesmo significado. Os pés simbolizam a fundação da vida humana e das atividades diárias. Quando são purificados ou ‘lavados’ pela ação inspiradora e iluminadora do Princípio Crístico no interior de cada homem, então, é alcançada a autopurificação.
O novilho cevado. Simboliza o resultado do processo criativo. Macrocosmicamente, comer o novilho cevado indica a absorção na Fonte divina de todas experiências e poderes resultantes do processo de manifestação em seus ciclos involutivo e evolutivo. No homem, o microcosmo, o novilho é o símbolo da sabedoria intuitiva, que nasce da descida da vontade espiritual ao veículo da inteligência abstrata, onde reside a alma imortal. No sentido espiritual, o processo de comer o novilho cevado, assim como todo banquete, simboliza o estado de ‘plenitude’ que foi alcançado ao fim de um ciclo (como a última ceia do Senhor).
O irmão mais velho ficou com raiva. A suposta raiva do filho mais velho deve ser tomada como uma manobra proposital para não chamar a atenção dos profanos para a natureza mais profunda da sabedoria secreta, pois é inconcebível a inveja entre diferentes aspectos da natureza Divina. Microcosmicamente, os dois irmãos podem ser considerados como os dois aspectos da mente humana, abstrato e concreto. Quando ocorre a sublimação da mente concreta, após o seu mergulho na matéria, os dois aspectos da mente são unidos e tornam-se o princípio intelectual. Assim, é natural que no fim da grande peregrinação o filho mais novo e o mais velho sejam reunidos na casa do Pai.
Teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado! A parábola descreve estados de consciência. A morte, nesse caso, implica na completa, ainda que temporária, perda, pelo homem mortal, da experiência da natureza divina e imortal do verdadeiro Eu. A ressurreição, por outro lado, descreve o redescobrimento desse conhecimento da unidade. Estar perdido significa o estado mental de ilusão da separatividade, que inibe temporariamente a compreensão espiritual, principalmente da unidade com Deus.
Queda e redenção. A idéia da queda do homem, da maldição de Eva e do pecado original, descritos no Gênesis, estão em íntima conexão com o tema da Parábola do Filho Pródigo, e descrevem a ‘queda’ do Espírito na matéria e sua eventual redenção, simbolizada pela jornada do filho pródigo ao país longínquo e seu retorno à casa do Pai. Em contato com a matéria, o Espírito perde temporariamente a consciência da unidade, desenvolvendo a ilusão da separatividade, individualismo, orgulho, sensualidade, que constituem o preço que cada habitante da Terra deve pagar para alcançar o estado do Homem Perfeito, o Adepto.
Tudo o que é meu é teu. A suave reprimenda do Pai ao filho mais velho, constitui a afirmação da verdade eterna de que todos os seres são expressões da vida una divina. Conseqüentemente, todas as manifestações da vida una participam nas realizações umas das outras, ainda que aparentemente separadas. A afirmação do Pai sobre a unidade aparece corretamente ao final da estória, que descreve alegoricamente o término de um grande ciclo.

(1) Este texto foi retirado do livro Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã, de Raul Branco, publicado pela Editora Pensamento em 1999.
(2) The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., Vol. I, parte iv, apresenta uma seção com a exposição da Parábola do Filho Pródigo como um exemplo da lei dos ciclos. (pg. 197-243).

Engano, Ilusões e Libertação




Se refletirmos bem, veremos que a mentira reina soberana. A busca pela vida interior exige que não nos deixemos sufocar pela falsidade deste mundo. O buscador anseia por se libertar, por confiar sua vida à alma que se enternece com a simplicidade e a verdade e se volta para o Espírito. Essa busca evidencia justamente quão profundamente a mentira está enraizada e quão mais grave que um simples vício ela é..."


Todos deploram a perda dos valores e dos princípios em nossa sociedade, mas calam certas coisas porque as palavras que as expressam são objeto da desaprovação geral. Os políticos fazem o elogio da virtude e estigmatizam a hipocrisia. Quanto à mentira e à fraude, elas parecem aceitas como algo normal. Não utilizamos esses nomes, mas quase todos somos culpados disso. Mesmo os que pensam ser honestos e francos e crêem nunca mentir. Os homens mentem para evitar os problemas, para proteger seu ego autoconservador que obstaculiza a simplicidade e a verdade, a luz que trazem no coração.


De onde vem a Luz? Ela provém da verdade, do Espírito - responde Hermes Trismegisto.


É verdade engloba tudo, ela é Deus mesmo. Ela é o Imutável. No espaço da manifestação, tudo está submetido à mudança. Uma coisa se vai, outra a substitui. E o novo encerra já a mudança. Na relação entre o mutável e o imutável, o mutável é o absolutamente não verdadeiro. Porque a verdade, segundo Hermes, só pode habitar em corpos eternos. Sob esse prisma, o homem terrestre pode ser qualificado de “não-verdadeiro”, por estar submetido à mudança. E isso possivelmente explica por que existe tanta mentira.




A mentira destrói o homem. Quando pensamos, uma corrente de energia elétrica atravessa nosso cérebro. Cada pensamento envia um impulso elétrico que é transmitido ao sistema nervoso. Todos os nervos partem do cérebro e se unem novamente no cérebro. Eles sulcam o corpo inteiro, todos os órgãos, o coração, o estômago, o fígado, os intestinos, os olhos, os músculos, até a ponta dos dedos, até a planta dos pés. O pensamento não permanece, pois, na cabeça; ele percorre nosso corpo e marca nossos olhos, nosso rosto, nossos gestos, nossa atitude, nosso sangue, nosso coração. Um pensamento emite uma onda elétrica que se propaga no corpo, que por sua vez reflete nosso pensamento: a energia-pensamento veicula a natureza e a qualidade de nossos pensamentos. Um pensamento negativo gera uma onda elétrica nefasta que danifica o corpo, e mesmo que ela esteja dirigida a alguma outra pessoa, é nosso próprio corpo que suporta as conseqüências disso.


Um pensamento benévolo também é portador de uma energia que pode ter uma influência salutar sobre nosso próprio corpo e o de outras pessoas, como, por exemplo, os pensamentos de amor e de perdão.



Mentir significa que temos dois pensamentos contrários na cabeça. Um provém da verdade e expressa, por exemplo, a realidade de uma situação. O outro provém da não verdade. Uma pessoa sensível nota de imediato se há mentira ou não. No cérebro, esses dois pensamentos estão em oposição, como dois inimigos. O princípio do detector de mentiras é medir a tensão resultante dessa oposição. Dois pensamentos contraditórios provocam uma tensão elétrica mensurável que se propaga pelo corpo inteiro através do sistema nervoso. O coração bate mais rápido, o estômago se contrai, os músculos também, os olhos piscam, o olhar se torna inquieto, o pulso acelera. As glândulas excretam um hormônio acidificante, tóxico para o corpo. Podemos, sem dúvida, contar histórias aos outros, mas não podemos enganar nosso próprio corpo. É impossível. Mentir não é algo inofensivo, quer nos demos conta ou não. A mentira corrói o corpo por essa tensão nociva.





A luz que o homem traz no coração é uma força elétrica de altíssima vibração, carregada de sabedoria e amor. A mentira e a Luz não podem irradiar juntas do coração. Ao mentir geramos dois males: destruímos o corpo e entravamos a Luz. A mentira começa com pequenas alterações da verdade, com exageros. Com o sucesso do procedimento, temos a tendência de continuar. E as coisas se encadeiam. Divertimo-nos em exagerar a verdade e, pouco a pouco, isso se torna mentira, e até embuste. Começamos com uma bola de neve, terminamos com uma avalanche. Temos em nós nosso próprio detector de mentiras. Os conflitos internos não deixam de manifestar suas conseqüências em nosso corpo, em nossa vida e na vida dos que nos cercam. Para saber o que é justo, é suficiente consultar seu próprio detector. Aquele que não o sente, aprende a senti-lo permanecendo atento à linguagem do corpo, que é uma linguagem universal e sempre justa.




Os movimentos da alma expressam-se no corpo e pelo corpo. Nesse movimento a alma natural nos diz o que é bom para nós e o que não é. A linguagem da nova alma provém da Luz. Nós nos esquecemos disso há muito tempo e não percebemos mais esse tranqüilo murmúrio. É uma linguagem sempre verdadeira, voltada para ao que há de mais nobre, de mais profundo no homem. A personalidade deve estar cada vez mais atenta à sua ressonância e não desejar conhecer nada diferente da verdade. A verdade às vezes é pungente, mas ela purifica. Quando a aceitamos, de inicio nos sentimos indefesos. Mas ao final de um certo tempo, o desejo por verdade cresce, pois ela é fonte de doçura, de liberdade e de alegria. Nesse espaço reconquistado, vemos nosso próprio estado com mais clareza. E, no mesmo instante em que os mecanismos de defesa do eu são enfraquecidos, é possível termos uma primeira percepção do advento do novo homem original.


Sabemos que ainda temos de percorrer um longo processo de transformação. Mas a certeza de finalmente termos encontrado o que há tanto procurávamos, nos dá toda a coragem. Sempre e novamente a verdade triunfa.


" Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Mestre Jesus, o Cristo - João 8.32