Budismo é a tradição formada a partir das práticas ensinadas por Sidarta Gautama 563 ou 623 a.C. em Lumbini, Nepal, na época Índia, conhecido como Buda Shakyamuni "sábio dos Shakyas", é a figura-chave do budismo há pelo menos 2.500 anos.

De acordo com a Tradição Hindu, Buda é um Avatar de Vishnu (Deus Supremo), baseados nas escrituras Upanishads, Vishnu e Bhagavad Purana. A palavra Buda vem de Bodh, que significa despertar.

Ao despertar, se iluminar Buda pensa que isso não poderia ser compartilhado, porém Brahma teria solicitado que ele ensinasse o que havia conquistado, porque alguns seres poderiam reconhecer o que ele reconheceu.

Os ensinamentos atribuídos a Gautama foram repassados através da tradição oral, ensina as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. A prática central de quase todas as linhas budistas é a meditação, método e resultado para uma familiarização e entendimento sobre a própria mente, práticas para controle do ego, e o despertar para iluminação. Buda dizia que seu ensinamento ia contra o sistema, ao contrariar os infinitos desejos egoístas do homem, "Atingi esta Verdade que é profunda, difícil de ver, difícil de compreender, compreensível somente aos sábios, os homens submetidos pelas paixões e cegos pela obscuridade não podem ver essa Verdade, que vai contra o sistema, porque é sublime, profunda, sútil e difícil de compreender". A filosofia sobre o caminho e os resultados variam conforme a escola.

A transmissão do Dharma do Buddha no Tibet ocorreu em dois períodos principais. Houve a primeira difusão do Dharma, por volta de 600 d.C, que foi imensamente potencializada, pelo Guru Rinpoche Padmasambhava. Essa primeira propagação do Dharma no Tibet, das traduções das escrituras em sânscrito para a língua tibetana, e ensinamentos e transmissões dadas por Guru Rinpoche, veio a formar a “Antiga Tradição” (tib. nyingma), Escola Nyingma.

Outros Mestres da Índia como o Pandita Atisha e o tibetano Tsongkapha vieram posteriormente ensinar no Tibet e formaram os pilares da segunda propagação do Dharma no Tibet, e que deu origem a “Nova Tradição” (tib. sar ma) através das Escolas Gelug. As escolas do budismo tibetano, baseadas nas transmissões das escrituras indianas para o platô tibetano, são achadas tradicionalmente no Tibet, Butão, norte da Índia, Nepal, Mongólia.

A maioria dos praticantes nesses países podem ser classificados como vajrayanas, que é um conjunto de escolas budistas esotéricas. A Tradição Vajrayana, é a fonte conhecida para se praticar o budismo original indiano, que foi praticamente erradicado de onde se originou, utiliza meios hábeis como o caminho acelerado possibilitando a iluminação. O nome vem do sânscrito e significa "veículo de diamante", possuem como modelo principal a figura do Lama. O objetivo da prática é se tornar um Bodhisattva.

Se você está numa praia e enche a mão de areia.
Esse tanto de areia em relação à areia da praia é a proporção de felizardos que têm contato direto com os ensinamentos budistas.
Se você abre a mão e deixa cair a areia, os grãos que sobram são os que estão envolvidos com a escola Mahayana.
Depois de bater as mãos para tirar a areia que resta, não sobra quase nada.
Esses últimos grãos, que quase não se vê, são os estudantes do budismo Vajrayana, raros e preciosos.

Ser budista.

Tenha confiança em seu próprio potencial espiritual, em sua habilidade de encontrar seu próprio caminho único.

Aprenda com outros resolutamente e use o que julgar útil, mas também aprenda a confiar em sua própria sabedoria interior.

Tenha coragem. Esteja desperto e consciente.

Lembre-se que o budismo não é sobre ser budista, ou seja, obter uma nova etiqueta de identidade.

Nem é sobre colecionar conhecimentos cerebrais, práticas e técnicas.

De maneira última, é sobre abandonar todas as formas e conceitos, se tornar livre e despertar.

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Gnose, tem por origem etimológica o termo grego "gnosis", que significa "conhecimento". Mas não um conhecimento racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental.


A palavra "Gnosis" geralmente é traduzida por "conhecimento", mas a Gnose não é, primordialmente, um conhecimento racional; a língua grega distingue entre o conhecimento científico (ele conhece matemática) e, reflexivo (ele se conhece), experiência que é Gnose, percepção direta daquilo que é, percepção interior, um processo intuitivo de conhecer-se a si mesmo.

A Sabedoria ultrapassa o intelecto, através da intuição, contempla. A Sabedoria faz com que a Verdade seja inteligível. O intelecto usa a razão e o conhecimento discursivo.

Gnose é usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua Essência Eterna, maravilhosa, pela via do coração.


Gnose é uma realidade vivente sempre ativa, que apenas é compreendida quando experimentada e vivenciada. Assim sendo jamais pode ser assimilada de forma abstrata, intelectual e discursiva.

Nós Gnósticos usamos de explicações metafísicas e 'mitologicas' para falar da criação do universo e dos planos espirituais, mas nunca deixamos de relacionar esse mundo externo e mitologico a processos internos que ocorrem no homem. Hoje a palavra mito, significa alguma coisa inveridica, irreal ou ficticia. Entretanto ela deriva do vocábulo grego mythos, que em seu uso original significa uma explicação da realidade que lhe confere significado.

GNOSTICISMO: Movimento que provavelmente se originou-se na Ásia Menor. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Índia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos do Helenismo, Zoroastrismo, do Hermetismo, do Hinduísmo, do Budismo Tibetano, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo primitivo. Possuíam uma linguagem técnica característica e ênfase na busca da sintonia interior com essa Gnosis, essa Sabedoria Divina, sem intermediários, um conhecimento do Divino por experiência própria.

Enquanto existir uma luz na individualidade mais recôndita da natureza humana, enquanto existirem homens e mulheres que se sintam semelhantes a essa luz, sempre haverá Gnósticos no mundo


"Não escrevo para aqueles que estão imbuídos de preconceitos, que compreendem e sabem tudo, mas que no entanto não Sabem nada, pois eles já estão satisfeitos e ricos, mas sim para os simples como eu, e assim me alegro com meus semelhantes."

Jacob Boehme




quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Parábola do Filho Pródigo


Nossa breve jornada pelo cristianismo primitivo não foi motivada por saudosismo, nem pela intenção Deixemos que o evangelista nos conte, mais uma vez, sua linda mensagem de esperança para todos nós, peregrinos há muito desgarrados e humilhados em terra distante, que ansiamos voltar à Casa do Pai.


“Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa. E gastou tudo. Sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar privações. Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou para seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas (cascas) que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E caindo em si, disse: ‘Quantos servos de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou-me embora, procurar o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados. Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho’. Mas o pai disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’ E começaram a festa. Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recuperou com saúde’. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!’ Mas o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver, ele estava perdido e foi reencontrado!” (Lc 15:11-32).
Para a maior parte dos cristãos, que por diversas vezes ouviram referências a essa parábola em sermões dominicais, a estória significa pouco mais do que a infinita generosidade do Pai, que recebe de braços abertos o filho pródigo que saiu de sua Casa para entregar-se à devassidão, dissipando sua herança. É mais uma lembrança de que o erro não compensa, mas que, em última análise, se tivermos a desgraça de cair no pecado (e quem não caiu incontáveis vezes?) podemos, por meio da verdadeira contrição, ser perdoados e recebidos de novo pelo Pai. Essa interpretação singela tem seus méritos e satisfaz a grande massa dos fiéis. Mas existe muito mais riqueza por trás dessa parábola, que é um verdadeiro exemplo de quantos ensinamentos podem estar velados na linguagem do simbolismo.
O respeitado pesquisador e autor Geoffrey Hodson afirma que essa parábola pode ser interpretada tanto do ponto de vista macro como do microcósmico, pois todas as alegorias apresentadas na Linguagem Sagrada são passíveis de diferentes níveis de interpretação. Isso deve-se a natureza essencial da unidade de toda a manifestação, desde o infinitamente grande até o infinitamente pequeno, tanto nos planos mais elevados como nos mais grosseiros. Esse é o sentido do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Visto sob outro ângulo, o homem é aquele ser em quem o espírito mais elevado e a matéria mais densa estão unidos pela mente.
Segundo aquele autor, a parábola do Filho Pródigo descreve, de forma simplificada, o processo cíclico de descida consciente da vida do Logos à matéria e seu eventual retorno à origem, à Casa do Pai, devidamente enriquecida pela experiência do processo, como simbolizado pela boa vinda concedida pelo Pai a seu filho. A parábola oferece um magnífico cenário, onde os atores e as principais etapas da jornada da alma, segundo a interpretação de G. Hodson, podem ser apresentados resumidamente da seguinte forma:

O Pai. Representa o eterno e infinito Genitor, do qual o temporário e o finito são gerados. Ele é causa primordial de toda a manifestação, sendo uma Existência ilimitada e incognoscível.
O Filho mais Velho. No sentido macrocósmico, personifica os elohim, as inteligências criadoras ou arcanjos, que nunca perdem a consciência da unidade com sua Fonte divina, permanecendo, portanto, em casa. No sentido microcósmico, representa a Centelha Divina no homem, ou a Mônada humana, que também permanece em unidade com a Fonte divina. As Mônadas são provavelmente os anjos que estão sempre voltados para a Divina Presença.
O Filho Pródigo. Macrocosmicamente, representa o aspecto imanente do Logos, a vida divina interior que embarca na grande peregrinação pelos diferentes planos da manifestação. No seu sentido microcósmico, representa o raio projetado da Mônada que, no seu devido tempo, manifesta-se a nível da inteligência abstrata como a alma espiritual em sua veste imortal de luz, o Cristo interior. Ele é o Deus peregrino que habita no homem, seu Eu Superior, que passa por infindáveis experiências ao longo de suas muitas encarnações na Terra.
A Casa do Pai. A consciência do Logos do Universo (o Pai) está estabelecida em seu mundo espiritual mais elevado. Alegoricamente, o Pai permanece em casa com as inteligências criativas cósmicas, o filho mais velho. Essa é a residência celestial do ‘Pai que está nos Céus’.
Ele toma a sua parte da herança e parte em viagem. A ‘parte da herança’ representa a porção de vida cósmica alocada a uma unidade individual em manifestação. Esse evento é, às vezes, descrito como a ‘queda dos anjos’, dando uma conotação infeliz ao processo, pois a saída da Casa do Pai é uma parte essencial do Plano Divino. Um símbolo mais apropriado é a plantação de sementes, que são enterradas na escuridão do solo, de onde germinarão, no seu devido tempo, quando regadas com a água da vida e fortalecidas com a luz do espírito. Num sentido pessoal, a ‘herança’ refere-se aos poderes armazenados no Eu Superior. Quando o homem chega ao ‘país distante’, isto é, manifesta-se no mundo das formas, esses poderes serão expressos de inúmeras maneiras, algumas temporariamente infrutíferas, insatisfatórias, daí a parábola dizer que o filho dissipou a herança de forma ‘pródiga’.
A região longínqua. O país distante é o espaço virgem sobre o qual o novo Sistema Solar será construído, ou como diziam os gnósticos, o Grande Abismo. No sentido microcósmico, o país distante é o campo evolutivo, incluindo, portanto, os planos mental, emocional, etérico e físico, dos quais o corpo físico, por ser o mais denso, é geralmente tido como a prisão do Ego imortal.
Dissipar a herança. Refere-se à Eterna Oferenda pela qual o Logos sacrifica Sua essência espiritual para que Seu Universo possa existir. É a crucificação voluntária do Cristo cósmico, o Filho Pródigo. Como se trata de um processo de limitação da vida universal da Deidade do universo, vincula-se alegoricamente como a dissipação da herança.
Uma grande fome. No sentido macrocósmico, representa a inércia que resulta do equilíbrio temporário entre Espírito e matéria, quando é alcançado o ponto mais denso da manifestação. Microcosmicamente, refere-se à ausência de compreensão espiritual da mente concreta durante a etapa inicial da peregrinação da alma, quando não recebe conscientemente nenhum impulso espiritual, mas vive para a gratificação da personalidade de forma deliberadamente egoísta e sensual. Fome e sede são também símbolos do anseio pela verdade. Embora a fome e a sede físicas possam ter conseqüências desastrosas, a fome e a sede da alma são auspiciosas, pois representam o prelúdio da busca da verdade.
Ele se emprega para cuidar de porcos. O porco é um símbolo dos instintos e desejos mais baixos e sensuais do homem. Isso significa que o filho pródigo chegou ao fundo do poço da materialidade, sensualidade e depravação.
Ele alimenta os porcos. No sentido macrocósmico, a vida una (o filho pródigo) vitaliza as formas materiais grosseiras (os porcos). Sem essa alimentação interior eles morreriam de inanição (fome). De forma similar, a Mônada, como microcosmo, supre o poder e ‘alimenta’ espiritualmente a alma que, por sua vez, inspira e vitaliza a personalidade. Na aplicação pessoal do símbolo, alimentar os porcos significa dar energia vital para as tendências animalescas, indicativas da vulgaridade que ocorre no ponto mais denso da jornada evolutiva.
Ele queria matar a fome com as cascas jogadas aos porcos. As cascas são os revestimentos físicos exteriores, ou as formas temporárias. Comer cascas, então, simboliza existência e experiência no interior da forma externa mais densa. Para o intelecto humano, essa fase da jornada corresponde ao estágio evolutivo em que a mente é incapaz de apreender as idéias e verdades abstratas e espirituais, daí alimentar-se com as idéias concretas. A percepção de que as cascas, ou a natureza efêmera das formas exteriores, são inteiramente insatisfatórias produz um anseio pelas realidades permanentes interiores. Essa é a verdadeira ‘fome’ por Deus, o anseio da alma pela união com sua verdadeira Fonte.
Mas ninguém lhas dava. A fome ainda perdura. A descoberta da realidade pelo homem é acompanhada pela compreensão de que a fome da alma nunca poderá ser satisfeita por ‘comida’ do exterior, e que a peregrinação da alma não terminará enquanto houver dependência de apoios externos. Esse é também um indício da solidão do místico.

Os servos de seu Pai comem enquanto ele passa fome. O ciclo de descida à matéria está chegando ao fim, pois o filho pródigo pensa em seu lar. O místico, faminto por alimento espiritual, contempla a casa do Pai, os seres espirituais e as inteligências criativas, os servos do Supremo, que têm comida em abundância. O homem que começa a despertar espiritualmente, percebe lentamente que somente através do serviço ao próximo poderá encontrar o caminho de casa e trilhá-lo até o fim. Somente pelo serviço o homem pode tornar-se Senhor do Todo. Está implícita a necessidade de humildade e a subserviência da personalidade ao Eu espiritual.
Vou-me embora. Macrocosmicamente, o ponto mais baixo da involução foi atingido e a viagem de retorno começa. Microcosmicamente, o filho pródigo fala pela primeira vez, indicando que a vida universal no homem atingiu a autoconsciência e a individualidade, capacitando-o a entrar deliberadamente no caminho de retorno. Seu arrependimento expressa um estágio de maturidade no qual descobre que nenhum objeto exterior pode satisfazer espiritualmente a alma, ou ‘salvar’ qualquer ser humano. A busca da satisfação começa a ser direcionada para o interior e para cima. Simbolicamente, o filho pródigo arrepende-se de seus erros anteriores, descobre o verdadeiro caminho e começa a jornada de retorno.
E ele partiu e foi ao encontro de seu Pai. Ainda que a longa e árdua jornada de volta à casa do Pai não seja explicitada (a via normal ou o caminho acelerado), a meta é atingida finalmente. Tendo escolhido as realidades permanentes, o homem entra no Caminho do Discipulado e acelera a viagem. A ilusão da separatividade é superada, e a consciência universal, a condição da Casa do Pai, é atingida.
Seu Pai corre para recebê-lo, dando calorosas boas vindas e o beija. Quando o caminho de retorno é trilhado, num certo ponto ocorre um afluxo de poder divino. A partir de então, para cada passo que o aspirante dá em direção ao alto, seu Mestre dá dois passos em sua direção, alegoricamente seu Pai corre para abraçá-lo. No sentido iniciático, o beijo simboliza a descida da força monádica sobre o candidato, por meio da voz e do tirso do hierofante na iniciação. Nesse sentido, o beijo representa a união das energias com as energias espirituais no centro da cabeça do iniciado, conferindo iluminação.
O filho pródigo confessa ser indigno. A confissão metafórica revela que, quando o ciclo evolutivo está prestes a terminar, o peregrino compreende o quanto a descida à matéria macula a expressão do Espírito. Da mesma forma, quando o Eu Superior alcança um certo grau de autoconsciência e é capaz de transmitir esse fato à mente e ao cérebro do homem mortal, então a motivação e a conduta não-espirituais anteriores são deploradas e renunciadas. A adoção natural dessa atitude de reconhecimento, renúncia e entrega marca uma fase muito importante no desenvolvimento do homem.
O Pai disse: trazei a melhor veste. Vestimenta nova é símbolo de um estado de consciência renovado e expandido. A vestimenta existente expressa as limitações usuais da personalidade como egoísmo, preconceito, intolerância, cegueira espiritual e outros grilhões da mente, que devem ser descartados para que uma nova fase evolutiva possa ser adentrada. Geralmente, uma veste nova ou lavada significa um novo corpo para a consciência, uma vez terminada uma etapa de experiência de vida no mundo. Agora a Veste do Filho é do melhor tecido, o mais sutil, a veste de Luz, ou Manto de Glória.
O Pai disse: ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. O círculo (anel), é o símbolo da eternidade e do poder e sabedoria eternos. Um ciclo foi terminado, e o anel indica que outro deverá ser começado, pois a progressão cíclica não tem começo concebível nem fim imaginável. O anel simboliza também os poderes adquiridos com o término do ciclo anterior. A colocação de sandálias nos pés complementa o simbolismo do anel no fim de um ciclo. A substância macrocósmica, especialmente a mais densa, é comumente representada por calçados, pois esses são colocados na parte inferior do corpo. O Ser está agora capacitado a entrar num novo ciclo devidamente aparelhado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus pretendeu o mesmo significado. Os pés simbolizam a fundação da vida humana e das atividades diárias. Quando são purificados ou ‘lavados’ pela ação inspiradora e iluminadora do Princípio Crístico no interior de cada homem, então, é alcançada a autopurificação.
O novilho cevado. Simboliza o resultado do processo criativo. Macrocosmicamente, comer o novilho cevado indica a absorção na Fonte divina de todas experiências e poderes resultantes do processo de manifestação em seus ciclos involutivo e evolutivo. No homem, o microcosmo, o novilho é o símbolo da sabedoria intuitiva, que nasce da descida da vontade espiritual ao veículo da inteligência abstrata, onde reside a alma imortal. No sentido espiritual, o processo de comer o novilho cevado, assim como todo banquete, simboliza o estado de ‘plenitude’ que foi alcançado ao fim de um ciclo (como a última ceia do Senhor).
O irmão mais velho ficou com raiva. A suposta raiva do filho mais velho deve ser tomada como uma manobra proposital para não chamar a atenção dos profanos para a natureza mais profunda da sabedoria secreta, pois é inconcebível a inveja entre diferentes aspectos da natureza Divina. Microcosmicamente, os dois irmãos podem ser considerados como os dois aspectos da mente humana, abstrato e concreto. Quando ocorre a sublimação da mente concreta, após o seu mergulho na matéria, os dois aspectos da mente são unidos e tornam-se o princípio intelectual. Assim, é natural que no fim da grande peregrinação o filho mais novo e o mais velho sejam reunidos na casa do Pai.
Teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado! A parábola descreve estados de consciência. A morte, nesse caso, implica na completa, ainda que temporária, perda, pelo homem mortal, da experiência da natureza divina e imortal do verdadeiro Eu. A ressurreição, por outro lado, descreve o redescobrimento desse conhecimento da unidade. Estar perdido significa o estado mental de ilusão da separatividade, que inibe temporariamente a compreensão espiritual, principalmente da unidade com Deus.
Queda e redenção. A idéia da queda do homem, da maldição de Eva e do pecado original, descritos no Gênesis, estão em íntima conexão com o tema da Parábola do Filho Pródigo, e descrevem a ‘queda’ do Espírito na matéria e sua eventual redenção, simbolizada pela jornada do filho pródigo ao país longínquo e seu retorno à casa do Pai. Em contato com a matéria, o Espírito perde temporariamente a consciência da unidade, desenvolvendo a ilusão da separatividade, individualismo, orgulho, sensualidade, que constituem o preço que cada habitante da Terra deve pagar para alcançar o estado do Homem Perfeito, o Adepto.
Tudo o que é meu é teu. A suave reprimenda do Pai ao filho mais velho, constitui a afirmação da verdade eterna de que todos os seres são expressões da vida una divina. Conseqüentemente, todas as manifestações da vida una participam nas realizações umas das outras, ainda que aparentemente separadas. A afirmação do Pai sobre a unidade aparece corretamente ao final da estória, que descreve alegoricamente o término de um grande ciclo.

(1) Este texto foi retirado do livro Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã, de Raul Branco, publicado pela Editora Pensamento em 1999.
(2) The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., Vol. I, parte iv, apresenta uma seção com a exposição da Parábola do Filho Pródigo como um exemplo da lei dos ciclos. (pg. 197-243).

Engano, Ilusões e Libertação




Se refletirmos bem, veremos que a mentira reina soberana. A busca pela vida interior exige que não nos deixemos sufocar pela falsidade deste mundo. O buscador anseia por se libertar, por confiar sua vida à alma que se enternece com a simplicidade e a verdade e se volta para o Espírito. Essa busca evidencia justamente quão profundamente a mentira está enraizada e quão mais grave que um simples vício ela é..."


Todos deploram a perda dos valores e dos princípios em nossa sociedade, mas calam certas coisas porque as palavras que as expressam são objeto da desaprovação geral. Os políticos fazem o elogio da virtude e estigmatizam a hipocrisia. Quanto à mentira e à fraude, elas parecem aceitas como algo normal. Não utilizamos esses nomes, mas quase todos somos culpados disso. Mesmo os que pensam ser honestos e francos e crêem nunca mentir. Os homens mentem para evitar os problemas, para proteger seu ego autoconservador que obstaculiza a simplicidade e a verdade, a luz que trazem no coração.


De onde vem a Luz? Ela provém da verdade, do Espírito - responde Hermes Trismegisto.


É verdade engloba tudo, ela é Deus mesmo. Ela é o Imutável. No espaço da manifestação, tudo está submetido à mudança. Uma coisa se vai, outra a substitui. E o novo encerra já a mudança. Na relação entre o mutável e o imutável, o mutável é o absolutamente não verdadeiro. Porque a verdade, segundo Hermes, só pode habitar em corpos eternos. Sob esse prisma, o homem terrestre pode ser qualificado de “não-verdadeiro”, por estar submetido à mudança. E isso possivelmente explica por que existe tanta mentira.




A mentira destrói o homem. Quando pensamos, uma corrente de energia elétrica atravessa nosso cérebro. Cada pensamento envia um impulso elétrico que é transmitido ao sistema nervoso. Todos os nervos partem do cérebro e se unem novamente no cérebro. Eles sulcam o corpo inteiro, todos os órgãos, o coração, o estômago, o fígado, os intestinos, os olhos, os músculos, até a ponta dos dedos, até a planta dos pés. O pensamento não permanece, pois, na cabeça; ele percorre nosso corpo e marca nossos olhos, nosso rosto, nossos gestos, nossa atitude, nosso sangue, nosso coração. Um pensamento emite uma onda elétrica que se propaga no corpo, que por sua vez reflete nosso pensamento: a energia-pensamento veicula a natureza e a qualidade de nossos pensamentos. Um pensamento negativo gera uma onda elétrica nefasta que danifica o corpo, e mesmo que ela esteja dirigida a alguma outra pessoa, é nosso próprio corpo que suporta as conseqüências disso.


Um pensamento benévolo também é portador de uma energia que pode ter uma influência salutar sobre nosso próprio corpo e o de outras pessoas, como, por exemplo, os pensamentos de amor e de perdão.



Mentir significa que temos dois pensamentos contrários na cabeça. Um provém da verdade e expressa, por exemplo, a realidade de uma situação. O outro provém da não verdade. Uma pessoa sensível nota de imediato se há mentira ou não. No cérebro, esses dois pensamentos estão em oposição, como dois inimigos. O princípio do detector de mentiras é medir a tensão resultante dessa oposição. Dois pensamentos contraditórios provocam uma tensão elétrica mensurável que se propaga pelo corpo inteiro através do sistema nervoso. O coração bate mais rápido, o estômago se contrai, os músculos também, os olhos piscam, o olhar se torna inquieto, o pulso acelera. As glândulas excretam um hormônio acidificante, tóxico para o corpo. Podemos, sem dúvida, contar histórias aos outros, mas não podemos enganar nosso próprio corpo. É impossível. Mentir não é algo inofensivo, quer nos demos conta ou não. A mentira corrói o corpo por essa tensão nociva.





A luz que o homem traz no coração é uma força elétrica de altíssima vibração, carregada de sabedoria e amor. A mentira e a Luz não podem irradiar juntas do coração. Ao mentir geramos dois males: destruímos o corpo e entravamos a Luz. A mentira começa com pequenas alterações da verdade, com exageros. Com o sucesso do procedimento, temos a tendência de continuar. E as coisas se encadeiam. Divertimo-nos em exagerar a verdade e, pouco a pouco, isso se torna mentira, e até embuste. Começamos com uma bola de neve, terminamos com uma avalanche. Temos em nós nosso próprio detector de mentiras. Os conflitos internos não deixam de manifestar suas conseqüências em nosso corpo, em nossa vida e na vida dos que nos cercam. Para saber o que é justo, é suficiente consultar seu próprio detector. Aquele que não o sente, aprende a senti-lo permanecendo atento à linguagem do corpo, que é uma linguagem universal e sempre justa.




Os movimentos da alma expressam-se no corpo e pelo corpo. Nesse movimento a alma natural nos diz o que é bom para nós e o que não é. A linguagem da nova alma provém da Luz. Nós nos esquecemos disso há muito tempo e não percebemos mais esse tranqüilo murmúrio. É uma linguagem sempre verdadeira, voltada para ao que há de mais nobre, de mais profundo no homem. A personalidade deve estar cada vez mais atenta à sua ressonância e não desejar conhecer nada diferente da verdade. A verdade às vezes é pungente, mas ela purifica. Quando a aceitamos, de inicio nos sentimos indefesos. Mas ao final de um certo tempo, o desejo por verdade cresce, pois ela é fonte de doçura, de liberdade e de alegria. Nesse espaço reconquistado, vemos nosso próprio estado com mais clareza. E, no mesmo instante em que os mecanismos de defesa do eu são enfraquecidos, é possível termos uma primeira percepção do advento do novo homem original.


Sabemos que ainda temos de percorrer um longo processo de transformação. Mas a certeza de finalmente termos encontrado o que há tanto procurávamos, nos dá toda a coragem. Sempre e novamente a verdade triunfa.


" Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Mestre Jesus, o Cristo - João 8.32




























quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mistérios do Cristianismo



Tendo visto que as religiões do passado reivindicaram uníssonas ter um lado oculto, ser custódias de "Mistérios", e que esta reivindicação foi endossada pela busca de Iniciação pelos homens mais eminentes, devemos agora averiguar se o Cristianismo fica fora deste círculo de religiões, sozinho sem uma Gnose, oferecendo ao mundo uma fé simples e não um conhecimento profundo. Se for assim, seria em verdade um fato triste e lamentável, provando ser o Cristianismo apenas destinado a uma só classe, e não a todos os tipos de seres humanos. Mas que isto não é assim, seremos capazes de provar além da possibilidade de dúvida racional.

E esta prova é a coisa que a Cristandade mais urgentemente necessita nestes tempos, pois até a própria flor da Cristandade está perecendo por falta de conhecimento. Se o ensino esotérico puder ser restabelecido e angariar estudantes pacientes e dedicados, não demorará muito para que o lado oculto também seja restaurado.

Discípulos dos Mistérios Menores se tornarão candidatos aos Maiores, e com a obtenção do conhecimento voltará também a autoridade do ensinamento. E de fato a necessidade é grande. Pois, olhando para o mundo em volta de nós, descobrimos que o Cristianismo está sofrendo da mesma dificuldade que teoricamente nós deveríamos esperar encontrar.

O Cristianismo, tendo perdido seu ensino místico e esotérico, está perdendo terreno entre grande número das pessoas mais altamente educadas, e a revivescência parcial durante os últimos anos é coincidente com a reintrodução de alguns ensinamentos místicos. É patente para todo estudante nos últimos 40 anos do século passado (o século XIX), que multidões de pessoas inteligentes, sensíveis e de alta moralidade tenham se desviado para fora das igrejas, porque os ensinamentos que recebiam lá ultrajavam sua inteligência e chocavam seu senso moral e interior.

É inútil pretender que o agnosticismo disseminado deste período tenha suas raízes seja na falta de moralidade ou na deliberada perversidade de mente. Qualquer um que estudar com cuidado o fenômeno logo admitirá que homens sinceros na busca foram levados para fora do Cristianismo pela crueza das idéias religiosas apresentadas, as contradições nos ensinamentos das autoridades, nas concepções sobre Deus, o homem e o universo, que nenhuma inteligência treinada poderia chegar a admitir.

Nem pode ser dito que qualquer tipo de degradação moral esteja na raiz da revolta contra os dogmas da Igreja. Os rebeldes não eram ruins demais para a sua religião. Ao contrário, foi a religião que ficou ruim demais para eles.

A rebelião contra o Cristianismo popular foi devida ao despertar e crescimento da consciência; foi a consciência que se revoltou, assim como a inteligência, contra ensinamentos desonrosos tanto para Deus quanto para o homem. A razão para esta revolta jaz no gradual rebaixamento do ensinamento Cristão para uma alegada simplicidade, para que o mais ignorante pudesse ser capaz de compreendê-lo.

Os religiosos assertaram sonoramente que nada deveria ser pregado exceto aquilo que pudesse ser compreendido, que a glória do Evangelho está em sua simplicidade, e que a criança e o inculto deveriam ser capazes de entendê-lo e aplicá-lo à vida.

Bastante verdadeiro, se com isto se quisesse dizer que existem algumas verdades religiosas que todos podem entender, e que a religião falha se deixa o mais inferior, o mais ignorante, o mais estúpido, de fora de sua influência elevadora.

Mas falso, completamente falso, se com isso se quiser dizer que o Cristianismo não tem verdades que o ignorante não possa compreender, que é uma coisa tão pobre e limitado a ponto de não ter nada para ensinar que esteja acima do pensamento do não inteligente ou acima do nível moral do degradado. Falso, fatalmente falso, se este for seu sentido; pois à medida que esta visão se espalha, ocupando os púlpitos e sendo proclamada nas igrejas, muitos homens e mulheres nobres, cujos corações quase se partem quando rompem sua ligação que os une à sua antiga fé, saem das igrejas, e deixam seus lugares ser preenchidos pelos hipócrita e pelo ignorante.

Eles ou passam para um estado de agnosticismo passivo, ou se são jovens e entusiastas para uma condição de agressão ativa, não acreditando que aquilo que poderia ser a coisa mais elevada ultraje tanto o intelecto como a consciência, e preferem a honestidade de uma descrença aberta ao embotamento do intelecto e da consciência sob imposição de uma autoridade em quem não reconhecem nada que seja divino.

Neste estudo do pensamento de nosso tempo vemos que a questão de um ensinamento oculto em conexão com o Cristianismo se torna de importância vital. O Cristianismo há de sobreviver como caminho do Ocidente? Viverá através dos séculos futuros, e continuará a ter uma parte na formação do pensamento das raças ocidentais em evolução? Se há de viver, deve recuperar o conhecimento que perdeu, e ter de novo seus místicos e seus ensinamentos ocultos; deve mais uma vez colocar-se como uma autoridade ensinando as verdades espirituais, revestido da única autoridade que vale alguma coisa, a autoridade do conhecimento.

Se estes ensinamentos forem recuperados, sua influência logo será vista nas novas e mais amplas concepções da verdade. Em primeiro lugar, o Cristianismo reaparecerá no "Lugar Santo", no Templo, de modo que todos que sejam capazes de receber suas linhas de pensamento divulgado em público; e em segundo lugar, o Cristianismo Oculto descerá outra vez ao Ádito, residindo detrás do véu que guarda o "Santo dos Santos", para dentro do qual só os Iniciados podem passar.

Então novamente o ensinamento oculto estará ao alcance daqueles que se qualificarem para recebê-lo, de acordo com as antigas regras, aqueles que desejam nos dias de hoje enfrentar as antigas exigências, feitas a todos os que hão de alegrar-se em conhecer a realidade e a verdade das coisas espirituais.

Mais uma vez voltemos nossos olhos para a história, para vermos se o Cristianismo foi único entre as religiões em não possuir nenhum conhecimento interno? Ou se assemelhou-se a todas as outras possuindo este tesouro oculto. Este problema é uma questão de evidência, não de teoria, e deve ser decidido pela autoridade dos documentos existentes e não pelo mero "assim se diz" dos Cristãos modernos.

É fato que tanto o Novo Testamento e os escritos da Igreja Primitiva fazem as mesmas declarações sobre a posse de tais ensinamentos pela Igreja, e sabemos a partir deles do fato da existência dos Mistérios chamados Mistérios de Jesus, ou Mistério do Reino, das condições impostas aos candidatos, algo da natureza geral dos ensinamentos dados, e outros detalhes.

Teria na verdade sido estranho se fosse diferente, quando consideramos as linhas do pensamento religioso que influenciaram o Cristianismo primitivo. Aliado aos hebreus, os persas, os gregos, tinto pelos antigos credos da Índia, profundamente colorido pelo pensamento sírio e egípcio, este último ramo do grande tronco religioso não poderia fazer outra coisa senão reafirmar as antigas tradições, colocando ao alcance das raças ocidentais todo o tesouro das tradições antigas. "A fé antigamente confiada aos Santos" teria na verdade sido esvaziada deste valor principal se, quando transmitida para o Ocidente, a pérola do ensinamento esotérico tivesse sido escamoteada.

A primeira evidência a ser examinada é a do Novo Testamento. Para nossos propósitos podemos colocar de lado todas as enfadonhas questões das diferentes redações e dos diferentes autores, que só podem ser julgadas por eruditos.

A erudição crítica tem muito a dizer sobre a idade dos manuscritos, sobre a autenticidade dos documentos, e assim por diante. Podemos aceitar as Escrituras canônicas como demonstração do que era acreditado na Igreja romana a respeito do ensino de Cristo e de Seus seguidores imediatos, e ver o que elas dizem sobre a existência de um ensinamento secreto transmitido somente a uns poucos.

Tendo visto as palavras postas na boca do próprio Jesus, e consideradas pela Igreja como de suprema autoridade, olharemos para os escritos do grande apóstolo Paulo; então consideraremos as declarações feitas por aqueles que herdaram a tradição apostólica e guiaram a Igreja durante os primeiros séculos. Ao longo desta ininterrupta linha de tradição e testemunho escrito pode ser estabelecida a proposição de que o Cristianismo tinha um lado oculto.

Veremos ainda que os Mistérios Menores de interpretação mística podem ser acompanhados através dos séculos até o início do século XIX, e que embora já não houvesse Escolas de Misticismo reconhecidas como preparatórias para a iniciação depois do desaparecimento dos Mistérios, ainda assim grandes Místicos, de tempos em tempos, alcançaram os degraus inferiores do êxtase por seus próprios esforços contínuos.

As palavras do próprio Mestre são claras e definidas, e foram, como veremos, citadas por Orígenes como referentes ao ensinamento secreto preservado na Igreja. "E quando estava sozinho, aqueles que estavam com Ele, os doze, faziam-Lhe perguntas sobre as parábolas. E Ele lhes disse: 'A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus, mas a eles que estão de fora, todas estas coisas são dadas em parábolas' ". E mais adiante:

"Com muitas parábolas semelhantes Ele pregava a palavra à multidão, pois só assim podiam ouvir. Mas sem parábolas Ele não lhes falava; e quando eles estavam sozinhos Ele explicava todas as coisas aos Seus discípulos" (Marcos, IV, 10, 11, 33, 34. Vide também Mateus, XIII, 11, 34, 36, e Lucas, VIII, 10).

Percebam as significativas palavras "quando estavam sozinhos", e a frase "aqueles que estão de fora". Também na versão de Mateus:

"Jesus despediu a multidão, e entrou na casa; e Seus discípulos foram com Ele". Estes ensinamentos dados "na casa", os significados mais recônditos de suas instruções, considera-se que eram transmitidos de instrutor a instrutor. O Evangelho dá, note-se, as explicações místicas alegóricas, aquilo que chamamos Os Mistérios Menores, mas o significado mais profundo diz-se ter sido dado somente aos iniciados.

Novamente, Mestre Jesus diz até mesmo aos Seus apóstolos:

"Eu ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas ainda não sois capazes de as receber" (João, XVI, 12).

Algumas delas provavelmente foram ditas depois de Sua morte, quando Ele foi visto pelos discípulos "falando das coisas pertencentes ao Reino de Deus" (Atos, 1, 3).

Nenhuma delas foi registrada publicamente, mas quem pode acreditar que foram deixadas de lado ou esquecidas, e não preservadas como algo inestimável?

Havia uma tradição na igreja que Ele visitou Seus apóstolos durante um considerável período após sua morte, para dar-lhes instrução um fato a que faremos menção mais tarde e no famoso tratado Gnóstico Pistis Sophia, lemos: "chegou-se a dizer que, depois de ressuscitar dos mortos, Jesus passou onze anos falando com Seus discípulos e instruindo-os" (loc. cit., trad. G.R.S. Mead, I, I, 1).

Então vem a frase, que muitos gostam de amenizar e explicar evasivamente:

"Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas ao porcos" (Mateus, VII, 6)

Um preceito que é de aplicação geral, na verdade, mas foi considerado pela Igreja Primitiva referir-se aos ensinamentos secretos. Deveria ser lembrado que as palavras não tinham a mesma dureza naqueles dias como têm agora, pois a palavra "cães" significando o vulgo, o profano era aplicada por aqueles de um determinado círculo a todos os que eram de fora de seu grupo, seja por uma sociedade ou associação, ou por uma nação como pelos Judeus a respeito dos Gentios .

"Não é lícito tirar o pão das crianças e jogá-lo para os cães" - Marcos, VII, 27).

Algumas vezes era usada para designar aqueles que estavam fora do círculo dos Iniciados, e a encontramos aplicada neste sentido na Igreja; aqueles que, não tendo sido iniciados nos Mistérios, eram considerados como fora do "Reino de Deus", ou da "Israel espiritual", e tinham este nome aplicado a eles.

Havia diversos nomes, além do termo "O Mistério", ou "Os Mistérios", usados para designar o círculo sagrado de Iniciados ou ligados à Iniciação: "O Reino". "O Reino de Deus", O Reino dos Céus", A Vereda Estreita", "A Porta Estreita", "O Perfeito", "O Salvo", "Vida Eterna", "Vida", "O Segundo Nascimento", "O Pequenino", "A Criancinha".
O significado é tornado claro pelo uso destas palavras nos primeiros escritos Cristãos, e em alguns casos fora do círculo Cristão.

Assim, o termo "O Perfeito" era usado pelos Essênios, que tinham três graus em suas comunidades: os Neófitos, os Irmãos, e os Perfeitos, sendo estes os Iniciados; e é empregado geralmente neste sentido nos antigos escritos. "A Criancinha" era o nome comum para um candidato recém iniciado, isto é, aquele que recém teve seu "segundo nascimento".

Quando passamos a conhecer este uso, muitas passagens de outro modo obscuras e rudes se tornam inteligíveis.

"Então um disse-lhe: Senhor, serão poucos os salvos? E Ele respondeu-lhes:
Esforçai-vos para entrar pela porta estreita; pois digo-vos, muitos procurarão entrar e não serão capazes"
(Lucas, XIII, 23, 24).

Se isto for aplicado, do modo Protestante usual, à salvação do fogo eterno do inferno, a afirmação se torna incrível, chocante. Não se pode supor que nenhum Salvador do mundo possa afirmar que muitos procurarão evitar o inferno e entrar no céu, mas não serão capazes de fazê-lo.

Mas se aplicado à estreita porta de entrada na Iniciação e sua conseqüente salvação do renascimento, é perfeitamente verdadeiro e natural. E novamente:

"Entrai pela porta estreita; pois larga é a porta e amplo é o caminho que conduz à destruição, e muitos serão os que andarão neles; porque estreita é a porta e apertado é o caminho que conduz à vida; e poucos o encontrarão" (Mateus, VII, 13, 14).

A advertência que se segue imediatamente contra os falsos profetas, os mestres dos Mistérios tenebrosos, é muito própria em relação a aquilo. Nenhum estudante pode esquecer o som familiar destas palavras usadas no mesmo sentido em outras passagens.

A "antiga vereda estreita" é familiar a todos; a senda "tão difícil de trilhar como se fosse o fio de uma navalha" (Kathopanishad, II, IV, 10, 11) já mencionado; a perambulação "de morte em morte" daqueles que seguem o florido caminho dos desejos, daqueles que não conhecem Deus; pois só se tornam imortais e escapam da bocarra da morte, da repetida destruição, aqueles homens que eliminaram todos os desejos (Brhadâranyakopanishad, IV, IV, 7).

A alusão á morte, é claro, é feita aos repetidos nascimentos da alma na existência material grosseira, considerada sempre como "morte" quando comparada à "vida" dos mundos mais elevados e sutis.

Esta "Porta Estreita" era o portal da Iniciação, através dele o candidato entrava no "Reino". E sempre foi e deve ser verdadeiro que somente uns poucos podem passar por aquele portal, embora miríades uma excepcionalmente "grande multidão, que ninguém poderia contar" (Apocalipse, VII, 9), e não uns poucos adentrem a felicidade do mundo celeste.

Assim também falou um outro grande Instrutor, há quase três mil anos atrás: "Dentre milhares de homens talvez só um se esforce pela perfeição; dentre os milhares que a obtém talvez só um Me conheça em essência" (Bhagavad Gita, VII, 3).

Pois são poucos os Iniciados em cada geração, são a flor da humanidade; mas nenhuma frase terrível de condenação eterna é pronunciada nesta declaração sobre a vasta maioria da raça humana. Como Proclo ensinou (vide ante, p. 23), os salvos são os que escapam do ciclo da geração, ao qual está atada a humanidade.

Em conexão a isto podemos lembrar da história do jovem que veio a Jesus, e chamando-lhe de "Bom Mestre", perguntou como ele poderia obter a vida eterna a bem reconhecida liberação dos renascimentos através do conhecimento de Deus (deve ser lembrado que os Judeus acreditavam que todas as almas imperfeitas voltavam para viver novamente na Terra).

Sua primeira resposta foi o preceito exotérico usual: "Observa os mandamentos". Mas quando o jovem respondeu: "Todas estas coisas eu tenho observado desde minha juventude", então, para aquela consciência livre de toda a transgressão, veio a resposta do verdadeiro Mestre:


"Se queres ser perfeito, vai e vende tudo o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus, depois vem e segue-me".
"Se queres ser perfeito", ser um membro do reino, devem ser abraçadas a pobreza e a obediência. E então para os seus próprios discípulos Mestre Jesus explica que dificilmente um homem rico pode entrar no Reino dos Céus, sendo tal entrada mais difícil que um camelo passar pelo buraco de uma agulha; pelos homens esta entrada não poderia ocorrer, por Deus todas as coisas são possíveis (Mateus, XIX, 16-26).

Somente Deus no homem pode ultrapassar aquela barreira. Este texto tem sido explicado de várias maneiras, sendo obviamente impossível conseguí-lo tomando seu significado superficial, que um homem rico não pode entrar em um estado de felicidade pós-morte.
Neste estado entram tanto o rico como o pobre, e as práticas universais dos Cristãos mostram que eles nem por um momento acreditam que a riqueza impeça sua felicidade após a morte. Mas se o significado real de "Reino dos Céus" for aplicado, temos a expressão de um fato simples e direto.

Pois aquele conhecimento de Deus que é Vida Eterna (João, XVII, 3) não pode ser obtido até que tudo o que for terreno seja abandonado, não pode ser aprendido até que tudo tenha sido sacrificado. O homem deve desistir não só da riqueza terrena, que daí em diante pode passa por suas mãos só para administrá-la, mas ele deve desistir também de sua riqueza interna, até onde ele a guardar como sua contra o mundo; antes que ele seja desnudado não poderá passar pela porta estreita. Este tem sido sempre um requisito para a Iniciação, e o voto do candidato tem sido sempre "pobreza, obediência, castidade".

O "segundo nascimento" é um outro termo bem conhecido para Iniciação; mesmo hoje na Índia as castas mais elevadas são chamadas "duas vezes nascidas", e a cerimônia que os torna duas vezes nascidos é uma cerimônia de Iniciação na verdade mera simulação, nos dias de hoje, mas segue "o padrão das coisas que está no céu" (Hebreus, IX, 23).

Quando Mestre Jesus está se dirigindo a Nicodemos, Ele fala que "a não ser que um homem nasça duas vezes, não pode ver o Reino de Deus", e este nascimento é dito como sendo aquele "da água do Espírito" (João, III, 3, 5); esta é a primeira Iniciação; uma ulterior é a "do Espirito Santo e do fogo" (Mateus, III, 11), o batismo do Iniciado em sua maturidade, assim como a primeira é a do nascimento, que o recebe como "uma Criancinha" que entra no Reino (ibid., XVIII, 3).

Quão totalmente familiares eram estas imagens entre os místicos dos Judeus é indicado pela surpresa demonstrada por Jesus quando Nicodemos se embaraçava com Sua fraseologia mística:

"Tu és um mestre de Israel e não conheces estas coisas?" (João, III, 10).

Um outro preceito do Mestre Jesus que permanece como "um ditado rude" para seus seguidores é:

"Sêde perfeitos, assim como vosso Pai no céu é perfeito" (Mateus, V, 48).

O Cristão comum sabe que possivelmente não conseguirá obedecer a este mandamento; cheio como está com as fragilidades e fraquezas humanas, como poderá ser perfeito como Deus é perfeito? Vendo a impossibilidade da meta posta diante dele, ele discretamente a põe de lado, e não pensa mais nisso. Mas vista como o esforço coroador, como o triunfo do Deus interno sobre a natureza inferior, a meta parece então dentro do alcance, e lembramos as palavras de Porfírio, sobre como o homem que atinge as "virtudes paradigmáticas é o Pai dos Deuses" e que nos Mistérios aquelas virtudes são adquiridas.

Paulo segue nas pegadas de seu Mestre, e fala exatamente do mesmo sentido, mas com uma explicitude e clareza maiores, como poderia ser esperado a partir de seu trabalho organizador na Igreja. O estudante deveria ler com atenção os capítulos II e III, e o versículo 1 do capítulo V da Primeira Epístola aos Coríntios, lembrando, à medida que lê, que as palavras são endereçadas aos membros batizados e comungantes da Igreja, membros plenos no sentido moderno, embora, descritos como bebês e carnais pelo Apóstolo.

Eles não eram catecúmenos ou neófitos, mas homens e mulheres que estava em plena posse de todos os privilégios e responsabilidades como membros da Igreja, reconhecidos pelo Apóstolo como estando apartados do mundo, e dos quais não esperava que se portassem como homens do mundo. Eles estavam, de fato, de posse de tudo o que a Igreja moderna dá aos seus membros. Resumamos as palavras do Apóstolo:

"Eu venho a vós trazendo o testemunho divino, e não vos enganando com sabedoria humana, mas venho com o poder do Espírito".

Em verdade 'falamos sabedoria entre os que são perfeitos, mas não é sabedoria humana'. Falamos da sabedoria de Deus em mistério, mesmo a sabedoria oculta, que Deus ordenou antes que o mundo existisse, a qual nem os príncipes deste mundo conhecem. As coisas daquela sabedoria estão além do entendimento dos homens, 'mas Deus as revela a eles por Seu Espírito... as coisas íntimas de Deus', 'ensinadas pelo Espírito Santo'
(Note-se como isto se alinha com a promessa do Mestre Jesus em João, XVI, 12-14:

"Eu tenho ainda muitas coisas a vos dizer, mas ainda não as podeis suportar. Porém quando Ele, o Espírito da Verdade, vier, Ele vos guiará em toda a verdade... Ele vos mostrará as coisas do porvir... Ele as receberá de mim e as mostrará a vós".

Estas são coisas espirituais, a serem discernidas somente pelos homens espirituais, em quem está a mente de Cristo. 'E Eu, irmãos, não vos poderia falar como falo aos espirituais, mas falo como aos carnais até mesmo para os bebês em Cristo... Eles não eram capazes de o suportar, como vós não o suportaríeis ainda. Pois sois ainda carnais'. Como um mestre-construtor [um outro termo técnico nos Mistérios] Eu deixei as fundações' e 'vós sois o Templo de Deus, e o Espírito de Deus habita em vós'. 'Que um homem nos considere assim, como ministros de Cristo, e guardiães dos Mistérios de Deus' ".

Alguém pode ler esta passagem e tudo o que foi dito no resumo é para enfatizar os pontos importantes sem reconhecer o fato de que o Apóstolo possuía uma sabedoria divina dada nos Mistérios, que seus seguidores coríntios ainda não eram capazes de receber? E notem a recorrência de termos técnicos: a "sabedoria", a "sabedoria de Deus em mistério", a "sabedoria oculta", conhecida somente pelos homens "espirituais", falada somente entre os "perfeitos", sabedoria da qual eram excluídos os não-"espirituais", os "bebês em Cristo", e só conhecida dos "mestres construtores", os "guardiães dos Mistérios de Deus".

Repetidas vezes ele se refere a estes Mistérios. Escrevendo aos Cristãos de Éfeso ele diz que "pela revelação", pelo desvelamento, tinha sido feito "sabedor dos Mistérios", e daí seu "conhecimento dos mistérios de Cristo"; todos podiam saber sobre a "irmandade dos Mistérios" (Efésios, III, 3, 4, 9).

Sobre este Mistério, ele repete aos colossenses que foi "feito ministro", "o Mistério que esteve ocultos das idades e das gerações, mas que agora era tornado manifesto aos Seus santos"; não ao mundo, nem mesmo aos Cristãos, mas somente aos Santos. Para eles era revelada "a glória deste Mistério"; e o que era isso?

"Cristo em vós" uma frase significativa, que veremos, logo, pertencer à vida do Iniciado; assim finalmente todo homem deve aprender a sabedoria, e se tornar "perfeito em Cristo Jesus" (Colossenses, i, 23, 25-28. Mas Clemente, em seu Stromata, traduz "todo homem" como "o homem todo". Vide o Livro V, cap. X). A estes Colossenses ele ordena orar "para que Deus nos abra a porta da profecia, para falar o Mistério de Cristo" (Colossenses, IV, 3), uma passagem à qual Clemente se refere como sendo uma em que o Apóstolo "revela claramente que o conhecimento não pertence a todos" (Clemente de Alexandria, Stromata, Livro V, cap. X; A.-N.C.L.

Alguns ditos adicionais dos Apóstolos serão encontrados nas citações de Clemente, mostrando qual significado tinham para as mentes daqueles que sucederam os Apóstolos, e que viviam na mesma atmosfera de pensamento). Da mesma forma também escreve ao seu bem-amado Timóteo, ordenando-lhe selecionar seus diáconos dentre aqueles que "mantinham o Mistério da fé em uma consciência pura", aquele "grande Mistério da Piedade", que ele havia aprendido (I Timóteo, III, 9, 16), cujo conhecimento era necessário para os instrutores da Igreja.

Porém Timóteo está em uma posição importante como representante da geração seguinte de instrutores Cristãos. Ele foi discípulo de Paulo, e foi indicado por ele para guiar e dirigir uma porção da Igreja. Ele havia sido, sabemos, iniciado nos Mistérios pelo próprio Paulo, e é feita referência a isto, e os termos técnicos mais uma vez servem como chave. "Esta função te delego, meu filho Timóteo, de acordo com as profecias que foram feitas sobre ti" (I Timóteo, I, 18), a bênção solene do Iniciador, que admitia o candidato; mas o Iniciador não estava sozinho: "Não descureis o dom que está em vós, o qual vos foi dado pela profecia, abandonando o Presbitério" (ibid., IV, 14) dos Irmãos Maiores.

E ele lhe adverte preservar aquela "vida eterna, à qual também fostes chamado, e professastes um bom voto diante de muitas testemunhas" (ibid., VI, 13) o voto do novo Iniciado prestado na presença dos Irmãos Maiores e da assembléia dos Iniciados. O conhecimento dado então era a incumbência sagrada sobre a qual Paulo fazia tanta ênfase: "Oh Timóteo, preserva aquilo que te foi confiado" e não o conhecimento comumente possuído pelos Cristãos, a respeito do qual não havia obrigação nenhuma sobre Timóteo, mas o depósito sagrado confiado a ele como Iniciado, e essencial ao bem da Igreja.

Paulo mais tarde volta a isto, enfatizando a suprema importância do assunto de um modo que teria sido exagerado se o conhecimento fosse a propriedade comum dos homens Cristãos:

"Guarda bem a forma das sérias palavras que ouvistes de mim... Aquela boa coisa que te foi confiada, guarda-a pelo Espírito Santo que reside em nós" (II Timóteo, I, 13,14) uma advertência tão séria quanto seria possível por lábios humanos. Mais ainda, era seu dever prover a devida transmissão deste depósito sagrado, para que pudesse transmitido ao futuro, e a Igreja nunca fosse deixada sem Instrutores: "As coisas que ouvistes de mim entre muitas testemunhas" os ensinamentos orais sagrados dados na assembléia dos Iniciados, que testemunhava a precisão da transmissão, "confia o mesmo a homens dignos, que sejam também capazes de ensinar aos outros" .

O conhecimento ou, se preferirmos o termo, a suposição de que a Igreja possuía estes ensinamentos ocultos lança uma torrente de luz sobre estas diversas passagens de Paulo sobre si mesmo, e quando as reunimos, temos um perfil da evolução do Iniciado. Paulo diz que embora ele já estivesse entre os perfeitos, os Iniciados, pois ele diz:

"Que nós, portanto, que somos perfeitos, tenhamos esta mentalidade" - ele ainda não tinha "atingido", ainda não era em verdade inteiramente "perfeito", pois ainda não havia recebido Cristo, ele ainda não havia atingido o "alto chamado de Deus em Cristo", "o poder de sua ressurreição, e a companhia de seus sofrimentos, sendo tornado conforme à sua morte"; e ele estava tentando, diz, "se por algum meio puder alcançar a ressurreição dos mortos" (Filipenses, III, 8, 10-12, 14, 15).

Pois esta era a Iniciação que libertava, que fazia do Iniciado um Mestre perfeito, o Cristo Ressurrecto, libertando-o finalmente dos "mortos", da humanidade presa ao ciclo da geração, dos laços que atavam a alma à matéria grosseira. Novamente aqui temos um número de termos técnicos, e mesmo o leitor superficial deveria perceber que a "ressurreição dos mortos" mencionada aqui não poderia ser a ressurreição comum dos modernos Cristãos, suposta ser inevitável para todos os homens, e portanto não requerendo obviamente nenhuma luta especial da parte de ninguém para conseguí-la.

De fato a própria palavra "conseguir" estaria fora de lugar ao referir-se a uma experiência humana universal e inevitável. Paulo não poderia evitar esta ressurreição, de acordo com o ponto de vista dos Cristãos modernos.

Qual seria então a ressurreição a ser conseguida para a qual ele estava fazendo tantos esforços? Uma vez mais a única resposta vem dos Mistérios. Neles o Iniciado se aproximava da Iniciação que libertava do ciclo do renascimento, o ciclo da geração, era chamado de "o Cristo sofredor", ele compartilhava dos sofrimentos do Salvador do mundo, era crucificado misticamente, "tornado conforme à Sua morte", e então conseguia a ressurreição, a companhia do Cristo glorificado, e, depois, a morte já não tinha poder sobre ele
Apocalipse,

"Eu sou Aquele que vive, esteve morto e ressurgiu, e vive eternamente. Amen").

Este era o "prêmio" em direção ao qual o Apóstolo estava se esforçando, e ele urge "todos os que são perfeitos", não o crente comum, para que também se esforcem deste modo. Que não se contentem com o que já obtiveram até então, mas que se esforcem por mais.

Esta semelhança com Cristo do Iniciado, de fato, é o próprio trabalho dos Mistérios Maiores, como veremos em maior detalhe quando estudarmos "O Cristo Místico". O Iniciado já não devia ver o Cristo como fora de si mesmo. "Embora tenhamos conhecido o Cristo na carne, deste modo já não o conhecemos" (II Coríntios, V, 16).

O crente comum havia sido "revestido de Cristo, assim como todos de vós que fostes batizados em Cristo se revestiram de Cristo" (Gálatas, III, 27). Então eles se tornavam os "bebês em Cristo", a quem já se fez referência, e Cristo era o Salvador de quem eles buscavam ajuda, conhecendo-o "na carne". Mas quando eles haviam vencido a natureza inferior e já não eram "carnais", então eles entrariam em um caminho mais elevado, e se tornariam eles mesmo Cristo.

Isto que ele mesmo já havia conseguido era o desejo do Apóstolo para os seus seguidores. "Meus filhos, de quem sofro as dores do parto até que Cristo seja formado em vós" (Gálatas, IV, 19). Ele já era seu pai espiritual, "tendo-vos gerado através do evangelho" (I Coríntios, IV, 15). Mas agora ele era como aquele que gera "novamente", como se fosse sua mãe para levá-los ao segundo nascimento.

Então o Cristo Infante, a Santa Criança, nascia na alma, "o homem oculto no coração" (I Pedro, III, 4), e o Iniciado se tornava assim "a Criancinha"; daí por diante ele devia viver em sua pessoa a vida do Cristo, até que se tornasse o "homem perfeito", crescendo "até a medida da plena estatura de Cristo" (Efésios, IV, 13). Então ele, como Paulo estava fazendo, repetia em sua própria carne os sofrimentos de Cristo (Colossenses, I, 24) e sempre tinha "junto a si a morte do Senhor Jesus", para que pudesse dizer com verdade "sou crucificado com Cristo; não obstante eu vivo; embora não seja eu, mas é Cristo que vive em mim" (Gálatas, II, 20).

Assim o Apóstolo estava ele mesmo sofrendo; assim ele descrevia si próprio. E quando a luta termina, quão diferente é o tom calmo de triunfo sobre árduos esforços dos primeiros anos:"Agora estou pronto para ser oferecido, e o tempo de minha partida está próximo. Eu lutei a boa luta, terminei minha carreira, guardei a fé; por isso me espera uma coroa de justiça"(II Timóteo, IV, 6-8).

Esta era a coroa dada " a ele que vencera", de quem é dito pelo Cristo Ressurrecto: "Eu farei dele um pilar no Templo de meu Deus; e dali não sairá mais" (Apocalipse, III, 12).

Pois após a "Ressurreição" o Iniciado se tornava o Homem Perfeito, o Mestre, e já não sai do Templo, mas dali serve e guia os mundos.

Pode ser bom assinalar, que o próprio Paulo sanciona o uso do ensinamento teórico místico na explicação dos eventos históricos registrados nas escrituras. A história escrita ali não é considerada por ele um mero registro de fatos, que ocorreram no plano físico.

Verdadeiro místico, ele via nos eventos físicos as sombras das verdades universais sempre ocorrendo nos mundos mais altos e internos, e sabia que os eventos escolhidos para serem preservados nos escritos ocultos eram aqueles mais típicos, cuja explicação serviria à instrução humana.

Assim ele toma a história de Abraão, Sarai, Hagar, Ismael e Isaac, e dizendo que "aquelas coisas são alegorias", ele passa a dar a interpretação mística (Gálatas, IV, 22-31). Referindo-se à fuga dos israelitas do Egito, ele fala do Mar Vermelho como um batismo, do maná e da água como comida e bebida espirituais, da rocha de onde a água fluiu como sendo o Cristo (I Coríntios, X, 1-4).

Nesta visão dos escritos sagrados não é alegado que os eventos registrados não tenham tido lugar, mas apenas que sua ocorrência física era coisa de menor importância. Uma explicação como esta é o desvelar dos Mistérios Menores, o ensinamento místico que é permitido dar ao mundo. Não é, como muitos imaginam, um mero jogo de imaginação, mas é a atividade de uma verdadeira intuição, vendo os protótipos nos céus, e não somente as sombras lançadas por eles na tela do tempo terreno.

Raul Branco

terça-feira, 16 de março de 2010

Mestre Jesus, o Cristo seu caminho

A chave para o entendimento de nossa tradição esotérica ocorre somente quando o devoto consegue integrar o relato bíblico em sua realidade interior é que a mensagem do Mestre Jesus realmente começa a trabalhar em sua alma. Isso é feito quando despertamos para o fato de que os relatos evangélicos não são meramente acontecimentos históricos de um passado distante, mas sim, a história de nossa própria alma. A chave que abre esse entendimento é a compreensão do simbolismo e da alegoria implícitos na mensagem evangélica.


A comovente história da vida de Jesus, como relatada nos quatro evangelhos, mais do que um relato biográfico exato da vida do Mestre, retrata, segundo um método velado da tradição milenar dos Mistérios, ensinamentos esotéricos profundos sobre a vida de cada filho de Deus, de cada um de nós.

Não é nosso propósito questionar a historicidade do relato bíblico que por tantos séculos serviu de esteio à devoção de milhões de fieis. O Vaticano, porém, ciente de uma série de incongruências nos relatos bíblicos da vida de Jesus, vem estimulando estudos para elucidar diversas questões históricas, inclusive a verdadeira data do nascimento e da morte de Jesus, um problema insolúvel para os historiadores há séculos. No relato bíblico a data apresentada para o nascimento de Jesus é fixa, porém a de sua morte é variável, uma indicação de que o relato é mítico e não histórico. O recém-nascido Jesus teria sido perseguido por Herodes, porém, é sabido que esse personagem histórico reinou na Palestina no período de 37 a 4 antes de nossa era, tendo morrido, portanto, quatro anos antes do suposto nascimento daquele a quem ele teria mandado matar. Esse e outros problemas históricos relativos à vida de Jesus não são objeto de nosso estudo.

Tampouco examinaremos os paralelos da vida do Mestre Jesus, o Cristo com os relatos da vida de outros grandes personagens das mais diversas tradições, como Krishna, Odin, Baal, Indra, Zoar, Alcides, Mikado, Thor, Quexalcote, Fohi, Tien, Adônis, Quirinus, Prometeu, Maomé, Mitra, Hórus, Dionísio, Zaratustra e Buda, para citar alguns.[1] Ainda que alguns estudiosos tenham sugerido que a vida de Jesus é mais um exemplo do mesmo mito solar representado em outras tradições, especialmente na tradição egípcia, na qual Mestre Jesus era versado, essas considerações não são centrais para a nossa tese.[2]

Para o verdadeiro cristão convencido de que o Reino de Deus está em seu interior e que ele pode ser alcançado pela metanoia, o importante é saber que o relato dos evangelhos descreve de forma alegórica os cinco estágios, ou iniciações, pelos quais todo buscador terá que passar até atingir a meta suprema da perfeição.

Se o Reino está no interior de cada um, com mais razão ainda estará o Cristo.

A importância desse ensinamento foi reiterada por Paulo que, em inúmeras passagens de suas epístolas, orienta-nos para o Cristo em nós, a esperança de glória. O amadurecimento espiritual faz com que as barreiras da separatividade sejam progressivamente destruídas. Para o místico, o Cristo não é mais uma figura separada no tempo e no espaço, mas uma realidade permanente em seu coração, que deve ser vivenciada aqui e agora.

Procuraremos examinar, portanto, o relato evangélico como a descrição da verdade eterna dos grandes marcos iniciáticos da vida de todo filho de Deus na etapa final de retorno à casa do Pai. Esse enfoque não diminui em nada o respeito e veneração que devemos sentir por Jesus, o Mestre que demonstrou de forma pungente como é possível alcançar-se a medida da estatura da plenitude do Cristo.

O personagem central, Jesus, simboliza o Cristo interior, que procura de forma ingente trazer sua mensagem redentora a nossa natureza inferior. Os principais eventos da vida de Jesus serão interpretados a seguir como marcos referenciais das cinco grandes iniciações, por que passam todos grandes mestres.[3]


Primeira iniciação: o nascimento
O primeiro passo na senda da perfeição é o nascimento do Cristo. Ele é a luz do mundo, que permanece dormente em todos os seres até ser despertado em nossa consciência. Os relatos evangélicos apresentam uma riqueza de detalhes sobre o evento. A luz do Cristo nasce sempre quando as trevas são mais profundas no mundo, daí seu nascimento ser apresentado pela Igreja como ocorrendo em 25 de dezembro, data do equinócio do inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, onde ocorre o exemplo histórico. A luz do sol aparece nessa data sob o signo de virgem.


Mestre Jesus representa a centelha divina no homem, o Cristo. Sua mãe, Maria, simboliza a alma espiritual, situada no plano mental superior. José, seu pai, figura como a mente inferior. Por isso, não foi José quem gerou a criança, pois a luz da intuição não pode ser gerada pela mente concreta. No entanto, após o nascimento da criança divina ela passa a ser cuidada por esse pai adotivo. Maria e José, portanto, formam um casal, a mente superior e a inferior, sendo, nesse sentido, os pais do Cristo. O Cristo é concebido pelo Espírito de Deus, sendo a conceição imaculada anunciada a Maria pelo mensageiro divino, o arcanjo Gabriel, a expressão da vontade divina criativa.

A anunciação é uma experiência interior pela qual todo iniciado deve passar. Nessa ocasião, a consciência do homem começa a desabrochar expandindo sua capacidade intelectiva e percepção psíquica. Trata-se de um verdadeiro nascimento dentro da alma, aludido por Paulo alegoricamente: “meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4:19).

No plano de Deus a harmonia está sempre presente. Toda vez que o pêndulo da vida estende-se para um extremo, deve inevitavelmente oscilar a seguir para o outro. Assim, depois do despontar da luz, da boa nova do nascimento divino, a força das trevas faz-se sentir, procurando trazer a morte.

Herodes, o governante exterior, personifica as forças das trevas que combatem a luz .[4]

No ser humano, Herodes representa a personalidade autocentrada, a força do passado, que teme o nascimento da luz no interior do ser, pois o Cristo, a esperança do futuro, necessariamente provocará uma revolução, ameaçando o controle das forças da materialidade e do egoísmo que mantêm o homem prisioneiro. Para que as forças trevosas do mal não matem o recém-nascido, a divina família deve fugir para o Egito, terra dos mistérios e santuário onde os iniciados eram e ainda são instruídos.


A cena do Natal, rememorada com profunda alegria por milhões de cristãos todos os anos, está repleta de símbolos. O estábulo, ou gruta, representa o corpo físico que abriga em seu interior todos os membros da família divina, que são os diferentes princípios do homem. A manjedoura, onde o Cristo menino está reclinado, utensílio usado na alimentação dos animais, representa o corpo vital ou etérico que preserva e distribui o prana, ou força vital do sol, pelo corpo físico. Os carneiros e as vacas representam as emoções. Para que o Cristo possa nascer pressupõe-se que esses animais tenham sido domesticados, ou seja, que as emoções do candidato à iniciação tenham sido disciplinadas e purificadas.


Os pastores representam os irmãos mais velhos e guias da humanidade, os Mestres que sempre comparecem às cerimônias de iniciação. Paulo refere-se a esses guias como “os justos que chegaram à perfeição” (Hb 12:23). Os três reis magos, que vieram do oriente (de onde vem a luz), simbolizam os três aspectos da divindade. Eles trazem presentes (ouro, incenso e mirra) ao jovem iniciado, expressando os aspectos espirituais do poder, do amor e da sabedoria. Com esses presentes a alma recém-iluminada, ou o Cristo-criança recém-nascido, está capacitado a empreender sua missão. Os reis magos são guiados pela estrela de Belém, o pentagrama que cintila acima da cabeça do hierofante sempre que um rito iniciático está em andamento.


Os evangelistas, como iniciados, conheciam claramente a linguagem sagrada e assim apresentaram um relato alegórico que preserva para todos os que têm olhos para ver a mensagem auspiciosa de que Cristo aguarda a oportunidade para nascer na consciência de todos os que aspiram alcançar o Reino dos Céus.

Quando esse nascimento virginal ocorrer, a luz crística na alma do iniciado passará a derramar suas bênçãos sobre toda a natureza inferior do homem, estimulando sua capacidade intelectual, percepção e sensibilidade. A expansão de consciência conseqüente faz com que a unidade de todos os seres deixe de ser meramente um conceito intelectual para tornar-se, ainda que momentaneamente, uma profunda experiência de vida.



Segunda iniciação: o batismo

O batismo de Jesus por João Batista representa a segunda grande iniciação. A imersão nas águas do Jordão tem um profundo significado místico. A água sempre foi usada como símbolo das emoções e paixões. Para que um iniciado possa capacitar-se a agir como um instrutor e salvador de almas, torna-se necessário que passe por essas experiências, que compartilhe a dor do mundo. Assim, o mergulho nas águas simboliza essa profunda experiência de sintonia com a dor de todos os que sofrem e anseiam por uma vida de felicidade, saúde e harmonia. Ao aceitar voluntariamente compartilhar a dor do próximo, o iniciado assinala ocultamente que está pronto para receber a Graça divina.


O Poder divino é conferido quando, simbolicamente, Jesus emergiu da água e “os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele” (Mt 3:16). O iniciado que se compromete a servir a Deus na labuta de salvação da humanidade demonstra ser um filho dileto do Pai, o que é confirmado por uma voz celestial que afirma: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3:17).
A segunda iniciação confere uma nova expansão de consciência e maiores poderes ao iniciado. O princípio intelectual, em particular, recebe um considerável estímulo. A capacidade analítica é consideravelmente aumentada, o que pode tornar o indivíduo demasiadamente crítico, orgulhoso e até mesmo materialista. Esse perigo é a contrapartida dos novos poderes concedidos. Assim como após a primeira iniciação os poderes da matéria se fizeram sentir na perseguição simbólica de Herodes, agora o iniciado enfrenta o mesmo processo numa volta mais alta da espiral. Jesus é, então, levado ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4:1).

O diabo simboliza o lado sombra do homem, os resquícios de orgulho, egoísmo e ambição pelo poder. O deserto simboliza o período de aridez espiritual que se segue a toda experiência de exaltação espiritual, como é testemunhado por todos os místicos. Durante esse estado interior de aridez, simbolizado pelos quarenta dias de jejum de Jesus, a personalidade é tentada a usar seus novos poderes para saciar sua fome, para obter posses e prestígio.

O mesmo Jesus que mais tarde alimentaria com seus poderes teúrgicos cinco mil homens (Lc 9:14-17), recusa-se a usar seus poderes para transformar pedra em pão para satisfazer suas necessidades pessoais. Ao contrário de Jesus, que responde com sabedoria e determinação a todas as tentações do diabo interior, muitos iniciados não resistem às tentações do mundo, especialmente ao orgulho e à ambição. Enquanto esses tentadores trevosos não forem definitivamente derrotados, o iniciado continuará marcando passo nessa etapa da senda. Por isso, é dito que o período entre a segunda e a terceira iniciação tende a ser um dos mais demorados a ser vencido pela maior parte dos iniciados.

Depois de receber seus novos poderes, o iniciado inicia sua missão no mundo, o que é simbolizado pela passagem em que: “Jesus percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo” (Mt 4:23).

Terceira iniciação: a transfiguração.
A terceira iniciação é geralmente representada na vida de Jesus pela transfiguração. É possível que esse acontecimento tenha sido inserido no lugar errado no relato bíblico, pois, no texto de Pistis Sophia, a transfiguração ocorre após a ressurreição de Jesus dos mortos como parte do processo de iluminação suprema do Mestre, simbolizado pela ascensão ao céu.[5]


Nas duas hipóteses, a transfiguração retrata o processo de iluminação, que na terceira iniciação é parcial, enquanto na quinta é total e definitiva. O relato menciona que a cena ocorre num monte (Mt 17:1-8), o que significa uma elevação do estado de consciência. Assim como na primeira iniciação os pastores de alma estavam presentes, também nessa ocasião os predecessores de Jesus no caminho da perfeição (Moisés e Elias) participam desse momento de glória.

Mas, se a transfiguração realmente tiver ocorrido como parte da quinta iniciação, qual seria, então, a passagem bíblica representativa da terceira iniciação? Certamente a eucaristia, o misterioso banquete divino. Mestre Jesus anuncia que desejava participar da páscoa com seus discípulos e que não a comeria até que ela se cumprisse no Reino de Deus (Lc 22:16). Ora, como foi dito anteriormente, o Reino de Deus é o estado de consciência da unidade, que é justamente alcançado quando a natureza superior do homem comunga com sua natureza inferior, o que é simbolizado pela eucaristia.

A terceira iniciação seria, então, simbolizada pela comunhão do pão e do vinho dos doze apóstolos. Toda a cena e seus personagens, no seu sentido esotérico, deve ser entendida como simbólica. Mestre Jesus e seus doze apóstolos simbolizam a totalidade do ser humano, sendo a casa onde ocorre a ceia a representação do corpo físico, o templo de Deus.


A ceia tem lugar no pavimento superior (Lc 22:11), ou seja, num estado de consciência elevado. Jesus representa a natureza divina do homem, o Cristo interior. Os doze apóstolos personificam as características do homem no mundo, com suas qualidades e fraquezas.[6] Pedro, por exemplo, representa a impulsividade e pusilanimidade do homem que ainda não aprendeu a controlar suas emoções. Judas, o traidor, com sua cobiça e ambição, simboliza o lado sombra que acompanha todo discípulo até as últimas etapas do caminho. João, o discípulo que Jesus amava, retrata a alma, a unidade de consciência, que busca a inspiração do Alto, simbolicamente reclinando sua cabeça (símbolo da mente) sobre o coração de Jesus (símbolo do Cristo interior), para aí permanecer no aguardo da Graça Divina.

A sagrada eucaristia representa a integração do ser humano. Os aspectos da natureza humana, com suas negatividades e qualidades, os doze discípulos, recebem do Mestre Jesus, o pão e o vinho, símbolos da carne e sangue do Cristo, com a admoestação: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6:53).

Obviamente Jesus estava falando em linguagem cifrada, indicando que a carne do Cristo significa o conhecimento espiritual, o sagrado alimento que confere iluminação ao intelecto humano. O sangue de Cristo simboliza a vida divina, o fluido essencial que constantemente se verte sobre todo o universo, sem a qual nenhum ser poderia viver. A consciência da divina presença no homem iluminado confere a certeza da imortalidade da natureza superior do homem, a vida eterna de que nos fala a Bíblia.[7]

Após a exaltação conferida pela terceira iniciação, a inexorável lei divina da harmonia leva o iniciado a experimentar o seu oposto. No relato bíblico isso é apresentado como a experiência no Getsêmani, que ocorre apropriadamente após a ceia pascal (Mt 26:36-45). Mestre Jesus convida três de seus discípulos mais próximos a acompanhá-lo, para juntos orarem.



Mas naquele momento de angústia, em que o iniciado descortina sua missão e os sacrifícios e sofrimentos que lhe sobrevirão, ele verifica que está só. Não conseguirá nenhum apoio externo ou interno nesse momento de solidão, o que é simbolizado nos evangelhos pelos discípulos dormindo durante a oração (Mt 26:40-45).

Numa atitude normal a qualquer ser humano, ao perceber o intenso sofrimento que lhe aguardava, Mestre Jesus invoca a Deus e diz: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice” (Lc 22:42). Porém, como iniciado comprometido com a missão de redenção da humanidade, aceita as conseqüências de uma vida altruísta de total desapego, ainda que ao preço de sua própria vida, e submete-se humildemente à vontade divina.


Quarta iniciação: morte e ressurreição
O portal da quarta iniciação abre-se para o servidor resoluto e dedicado que aceita beber o cálice amargo da vida de serviço. Os sofrimentos intensos pelos quais passa o iniciado que aceita carregar a cruz do mundo e assumir parte do pesado carma da humanidade são representados nos evangelhos pelos dolorosos relatos da paixão do Senhor.

A morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna, os dois aspectos complementares que simbolizam a quarta iniciação, têm lugar em Jerusalém, a cidade santa. O iniciado deve entrar nesse elevado estado de consciência em plena posse de suas faculdades humanas, ou seja, num corpo físico. Isso é simbolizado pela entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento, um quadrúpede domesticado, que representa os quatro corpos inferiores do homem (físico, etérico, astral e mental concreto) devidamente disciplinados.

O estágio do sofrimento parece ser o companheiro inseparável do iniciado. Na estória de Jesus, começa com o sofrimento psíquico antecipado no Getsêmani, onde ele se sente terrivelmente solitário e sem o apoio de seus discípulos. No desenrolar dos acontecimentos, segue-se a traição de um discípulo e a fuga dos outros quando se sentem ameaçados.

Cristo é escarnecido e insultado pela multidão enfurecida, representando as paixões dos homens que sempre zombam da natureza divina. Depois ele é açoitado e espancado pelos soldados, que são os condicionamentos da natureza inferior que seguem as ordens de nosso inconsciente, sempre preocupado com a manutenção do status quo de nossa vida mundana.

O julgamento é feito por Pilatos, o governante da ordem exterior, que simboliza a personalidade. Mestre Jesus é devidamente apresentado como aquele que procura subverter a nação e, quando interrogado por Pilatos, confirma que é o Cristo, rei da natureza humana.

A personalidade, ao lavar as mãos, procura, como sempre, justificar-se alegando não ter culpa por condenar um inocente, pois está atendendo ao clamor da plebe (as paixões) e à recomendação dos sacerdotes, os líderes da natureza inferior, que representam o egoísmo, a ignorância, o orgulho e a ambição.

Seguindo a tradição, Pilatos pergunta ao povo se prefere a libertação de Jesus ou do criminoso Barrabás. As paixões pedem a crucificação da natureza divina e a libertação do criminoso com o qual, em sua ignorância, identificam-se. Porém, Barrabás significa, em aramaico, o filho do pai. Portanto, a natureza inferior, mesmo com a conivência da personalidade, jamais conseguirá matar o Cristo. Ao exigir a libertação do usurpador Barrabás, estará simplesmente permitindo que o filho do Pai celestial, que é a alma ignorante de sua verdadeira natureza, continue a vagar pelo mundo até redimir-se de todos seus crimes contra a grande Lei para, então, retornar à casa paterna como o Cristo triunfante.

O relato da paixão de Jesus representa a via crucis de todos os que passam pela quarta iniciação: devem morrer para o mundo para alcançar a consciência permanente do Reino de Deus, a consciência da vida eterna. Paulo descreve essa experiência: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2:19-20).

É interessante notar que a crucificação tem lugar no monte Gólgota, ou calvário, que significa a caveira. A culminação dessa importante iniciação ocorre mais uma vez num monte, uma clara indicação de um estado elevado de consciência. O Golgota representa o crânio humano, o lugar físico onde a consciência divina é crucificada. Jesus, expressando a consciência divina, é crucificado entre dois malfeitores, um dos quais seria o bom ladrão (Lc 23:39-43).

Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da mente, um dos quais se volta para o alto e segue o Salvador rumo ao Reino dos Céus. O túmulo na rocha no qual Jesus teria sido enterrado é também outra representação de que o Cristo espiritual é enterrado no plano mais denso da manifestação, o plano físico, de onde só é libertado após cumprir sua missão terrena.

É dito no Credo dos Apóstolos que, após a morte, Jesus “desceu ao inferno e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos.” Na Bíblia é dito que: “Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão” (1 Pd 3:19).

Para os antigos o inferno não tinha a conotação de tormento eterno estabelecida mais tarde pela igreja. O inferno era tido como uma região ou lugar oculto, o Hades dos gregos, enfim, um submundo habitado pelas pessoas que deixavam o corpo físico para trás. Essa passagem pode ser interpretada de duas formas: uma psicológica e outra esotérica.

A conotação psicológica é que o iniciado só pode alcançar a libertação quando desce ao inferno de seu inconsciente e liberta seu lado sombra. Ele só pode ser livre quando não existirem mais condicionamentos inconscientes em sua natureza inferior. A interpretação esotérica é que todo iniciado deve descer ao mundo astral e levar a luz e a esperança para as almas atormentadas pelo remorso dos erros cometidos quando encarnadas no mundo.[8]

A morte e a ressurreição do Cristo representam alegoricamente a quarta iniciação. O que morre não é o corpo físico, mas o sentido pessoal de separatividade.

O que ressurge dos mortos é a alma agora consciente da unidade com o Todo e com todos os seres. A partir desse momento a alma pode deixar o sepulcro terreno, que é o corpo físico, sem nenhum lapso de consciência e entrar nas regiões superiores do mundo celestial.[9]

A vivência da unidade confere ao iniciado uma profunda compaixão. Ele agora, além de procurar aliviar a dor dos que sofrem injustiças e violências, busca ajudar os injustos e criminosos. Ele sabe que o injustiçado, caso tenha a atitude correta, estará terminando seu ciclo cármico, enquanto o criminoso está iniciando o seu, atraindo para si pesada carga de sofrimento, na justa medida do sofrimento que causou. O iniciado só estará pronto para a quarta iniciação quando puder perdoar aqueles que lhe ferem, bem como os que ferem a todos os fracos e oprimidos, como Mestre Jesus, que em meio à agonia da crucificação, disse: “Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23:34).


Quinta iniciação: a ascensão ao céu
Para os budistas e hinduístas, aquele que recebeu a quarta iniciação é chamado de Arhat, sendo conhecido como o liberto que não mais precisa retornar ao mundo dos homens, tendo merecido o descanso paradisíaco no que chamam de Nirvana. A maior parte dos Arhats, no entanto, movidos pela suprema compaixão, comprometem-se a permanecer na esfera terrena para ajudar na libertação de todas as almas sofredoras, até o fim dos tempos.



A alma (Jesus) agora venceu a morte, porque morreu para o mundo. Simbolizando o término de seu ministério terreno, o iniciado diz, como Mestre Jesus na cruz: “Está terminado” (Jo 19:30) e “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23:46).

No relato bíblico Mestre Jesus retorna dos mortos e fica algum tempo instruindo seus discípulos, preparando-os para prosseguirem com o ministério de salvação das almas. Esse retorno ao mundo terreno, seja num corpo físico, seja num corpo sutil, dependendo dos textos consultados, comprova o compromisso do iniciado em permanecer em nossa esfera terrena instruindo e ajudando a humanidade. Chega finalmente o dia que, em grande glória, ele ascende ao céu.
No texto Pistis Sophia a ascensão é descrita de forma tocante, com a descida de anjos portando seus mantos de luz. Uma vez envolvido na luz, Mestre Jesus é transfigurado e seus discípulos não podem agüentar o brilho de sua luz até que Mestre Jesus desaparece no alto. Jesus, como todo o adepto que recebeu a quinta iniciação, pode agora dizer: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30).

A quinta iniciação indica o término do aprendizado humano. O Mestre de Compaixão e Sabedoria alcança a perfeição e passa a ser um salvador de almas. Todas as tentativas de descrever a natureza desses excelsos seres são infrutíferas, pois não existe termo de comparação em nosso mundo terreno, já que eles agora pertencem a uma outra categoria de seres, muitas vezes descritos como divinos. São verdadeiros mensageiros plenipotenciários de Deus, trazendo, como Mestre Jesus, a eterna mensagem de salvação para as almas sofredoras. E essa é a meta que o Pai celestial estabeleceu para todos nós.
Como vimos anteriormente, a harmonia do processo evolutivo requer que cada experiência de exaltação do iniciado seja contrabalançada por uma experiência em sentido contrário.

Assim, após as três primeiras iniciações, Jesus teria enfrentado as forças das trevas: a perseguição por Herodes, a tentação no deserto e a agonia no Getsâmane.

Na quarta iniciação a ordem é invertida, primeiro a noite escura da alma culminando com a crucificação, para depois alcançar a exaltação da ressurreição dos mortos. E a quinta iniciação?


Qual seria a possível contraparte penosa para quem alcançou a união com Deus? Para quem permanece constantemente na bem aventurança de perfeita unidade com Deus, o seu estado oposto é justamente deixar esse estado paradisíaco. Essa é justamente a provação do Mestre de Compaixão e Sabedoria! Encarnar-se de tempos em tempos, assumindo as limitações inerentes a um corpo humano, submetido ao bombardeio das vibrações extremamente pesadas de nosso mundo, sempre que o Plano Divino requer sua atuação na Terra para dar mais um impulso ao processo evolutivo.
Uma imagem que talvez possa transmitir uma vaga idéia do que deve ser essa provação para um Mestre seria o grau de sacrifício que um indivíduo de classe média faria ao decidir-se voluntariamente abandonar sua vida confortável para viver num barraco imundo num imenso aterro sanitário (o que comumente chamamos de lixão) para dedicar-se a ajudar as pobres almas que vivem catando lixo e morando naquela condição subumana.


A vida mística
Muitos cristãos sinceros, ao perceberem nos relatos da vida de Jesus uma representação alegórica dos cinco grandes marcos da vida do discípulo até atingir “a medida da estatura da plenitude do Cristo” (Ef 4:13), desejam também passar pela mesma experiência. Nesse caso, segue-se naturalmente a pergunta: como posso ser iniciado? O processo iniciático é um mistério que é mantido em segredo por aqueles que foram admitidos ao ádito sagrado. Sabemos que o primeiro passo é ser aceito como discípulo de um Mestre que assumirá o encargo de prepará-lo para as iniciações.[10] E o que devemos fazer para ser aceitos por um Mestre? Pensamos que a aspiração ardente pela união com Deus e o uso do instrumental transformador descrito nesse livro abre o caminho para isso. Ademais, existe na tradição esotérica um lema auspicioso para todo buscador: ‘Quando o discípulo está pronto o mestre aparece.’


Nos primeiros séculos, após a morte do Mestre Jesus, os cristãos dedicados que levavam uma vida pura podiam ser admitidos aos grupos internos criados pelos discípulos de Jesus. Nesses grupos, uma vez devidamente preparados, os devotos podiam receber progressivamente os sacramentos, ou mistérios, instituídos por Jesus.

Esses sacramentos eram: o batismo, a crisma, a eucaristia, a redenção e a câmara nupcial.[11]

Os sacramentos tinham um estreito paralelo com as iniciações como descritas anteriormente. O batismo eqüivalia ao nascimento do Cristo interior (“Todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo” Gl 3:27); a crisma era o batismo do Espirito Santo, equivalente ao batismo de Jesus nas águas do Jordão; a eucaristia era equivalente à comunhão da natureza superior com a inferior do homem, que ocorria na terceira iniciação; a redenção tinha um paralelo com a quarta iniciação, representada pela morte e ressurreição do Senhor; finalmente, o sacramento supremo da câmara nupcial representava a união completa e permanente da consciência do homem com a de Deus, representada pela ascensão de Jesus ao céu para permanecer à direita do Pai.


Com as perseguições instituídas pela ortodoxia, principalmente a partir do século IV de nossa era, os grupos esotéricos cristãos que mantinham a tradição dos mistérios de Jesus tiveram que se esconder para sobreviver. A história do ocultismo indica que inúmeros grupos, ao longo dos séculos, parecem ter recuperado de alguma forma essa tradição. Assim como esses grupos existiram no passado, é lícito supor-se que ainda existam nos dias de hoje, ainda que totalmente velados da curiosidade pública. Assim sendo, em vez de lançar-se a uma busca desenfreada por grupos ocultos, que muito provavelmente poderá redundar na afiliação a grupos inidôneos, o devoto deve cuidar de sua preparação interior, lembrando-se da verdade milenar mencionada anteriormente de que ‘quando o discípulo está pronto o mestre aparece.’


Mas existe outra alternativa aos sacramentos exteriores, que são esses mesmos mistérios ministrados interiormente aos devotos sinceros. Esse é o caminho que vem sendo trilhado por milhares de místicos ao longo dos séculos. Esses incansáveis buscadores trilharam arduamente o caminho da perfeição, recebendo em seu coração, provavelmente de forma inconsciente, os sacramentos do Mestre Jesus, à medida que progrediam no caminho espiritual. Ao analisarmos a vida dos místicos torna-se óbvio a correlação dos estágios da via mística com as iniciações e os sacramentos do Mestre Jesus.


Ainda que nem todos os místicos sigam exatamente a mesma seqüência de experiências interiores, alguns pesquisadores sugerem que existem cinco etapas gerais pelas quais a maior parte desses ardentes buscadores passam a caminho da união final com o Bem-Amado. [12]


  • O despertar. A primeira etapa é caracterizada pelo despertar da consciência para a Realidade Divina. Ela é abrupta e bem marcante em muitos casos, mas também pode ser gradual. Geralmente, é acompanhada de sentimentos intensos de contentamento e até mesmo de arrebatamento espiritual, que proporcionam incentivo ao indivíduo a se dedicar integralmente a “seguir a Deus.”
  • Purgação. Na segunda etapa, o místico torna-se consciente da disparidade entre a beleza e a pureza divina que foram experimentadas em seu interior frente à realidade do seu estado exterior, caracterizado por imperfeições, apegos, ilusões e impurezas. Inicia-se, então, a penosa etapa de purificação em que ele procura eliminar, pela disciplina e mortificação, tudo aquilo que julga ser uma barreira ou elemento impeditivo para seu progresso rumo ao ideal de união com Deus. São geralmente longos anos de esforço e sofrimento, na luta ingente contra a natureza inferior.

  • Iluminação. Depois do sofrimento da purgação vem a intensa felicidade da iluminação, ou comunhão com Deus. Tendo se libertado em grau considerável das ‘coisas do mundo,’ a custo de muito suor e lágrimas, o místico pode agora colher os frutos da realidade espiritual que em nada se parecem com a gratificação dos sentidos. Ocorrem visões da Unidade, da Luz Divina, percepções intuitivas da natureza humana e da realidade das coisas, vozes angélicas e celestiais que o instruem, arrebatamentos e viagens fora do corpo. O místico entra numa nova dimensão e passa a contribuir de forma mais capaz e dedicada às necessidades dos que o cercam.
  • A noite escura da alma. Prossegue a alternância entre luz e sombra das três primeiras etapas. Depois de ter metaforicamente visto o Sol, o místico agora penetra nas profundezas das trevas. Tendo se deleitado com a experiência da presença de Deus, agora ele sofre com a ausência divina. Ele enfrenta a mais terrível de todas as experiências do caminho místico, descrita por João da Cruz como a noite escura da alma e, por outros, como a ‘dor mística,’ a ‘morte mística,’ a ‘purificação do Espírito.’ É uma verdadeira ‘crucificação espiritual’ a que o buscador deve submeter-se para alcançar a glorificação subseqüente da ascensão às alturas da união com Deus. Enquanto estava na etapa da purgação, o místico buscava extirpar o interesse pelas coisas do mundo e pela gratificação dos sentidos, agora ele deve estender o processo de purificação ao âmago de sua natureza inferior, eliminar o sentido de ser um ‘eu separado.’ Somente quando a personalidade entrega-se inteiramente a Deus, com fé inquebrantável, apesar de sofrer com o que lhe parece ser o abandono da Divina Presença, quando não mais espera nada para o eu pessoal, cortam-se os últimos laços com a consciência egoísta, capacitando a alma a unir-se com o Supremo Bem.
  • A União. A bem-aventurança experimentada nesse estágio é inteiramente diferente de qualquer experiência de felicidade até então, pois agora o místico não experimenta algo fora de si como um observador ou mesmo como participante, como acontece na etapa da Iluminação. Nessa etapa ele une-se a Deus e tem a experiência absolutamente indescritível de ser divino. Essa é a meta final do caminho místico e da vida espiritual. É geralmente alcançada em estado de profunda contemplação, quando cessam todas as imagens do mundo das formas e dos conceitos, e o místico identifica-se com o Vazio, o estado contemplativo sem formas e conceitos, que é simultaneamente a plenitude da Vida e do Ser.
A rica tradição esotérica cristã sempre esteve voltada para a transformação do homem velho num homem novo. O objetivo dessa tradição não é formar meros devotos, ou cristãos tradicionais, mas sim verdadeiros Cristos, nascidos na gruta do coração, sendo batizados, transfigurados, mortos e sepultados, ressurgindo dos mortos e, finalmente, ascendendo em glória aos céus, para permanecerem à direita do Pai. Essa é a via mística, trilhada por tantos milhares de buscadores sinceros ao longo dos séculos. Nela todos os ensinamentos e passagens da vida do Cristo retratam a vida de sua própria alma. Se for bem sucedido nesse propósito, o místico perceberá que as palavras do Cristo eram dirigidas a ele: “Eu vos digo, verdadeiramente, que alguns que aqui estão presentes não provarão a morte até que vejam o Reino dos Céus” (Lc 9:27). Será excelsa a glória daqueles que alcançarem a perfeição, conforme se pode aquilatar nas palavras do Cristo registradas no Livro do Apocalipse: “Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono” (Ap 3:21).

Raul Branco

[1] Um exaustivo trabalho de Kersey Graves, intitulado The World’s Sixteen Crucified Saviors, or Christianity before Christ (reprint, Montana, Kessinger Publishing Co) indica que varias características são comuns a quase todos esses salvadores da humanidade. Dentre elas vale mencionar: nascimento milagroso, de mães virgens, em 25 de dezembro; suas vindas teriam sido profetizadas anteriormente; uma estrela brilhante indicaria o local do nascimento; anjos, pastores e magos estariam presentes; eram de descendência real; foram ameaçados de morte na infância pelo governante do país onde nasceram; deram provas de sua divindade; afastaram-se do mundo por algum tempo para jejuar; disseram que o seu reino não era desse mundo; foram ungidos; foram crucificados pelos pecados do mundo; depois de três dias enterrados ressurgiram dos mortos; ao final de sua missão ascenderam ao céu. [2] O leitor poderá obter mais informações sobre essas questões no exaustivo estudo de Gerald Massey, The Historical Jesus and the Mythical Christ (republicado em N.Y. por A&A Books Publishers, 1992). [3] As interpretações apresentadas foram baseadas nos livros listados a seguir: Geoffrey Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, vol. I, op.cit., e A Vida do Cristo do Nascimento a Ascensão, (Brasília: Editora Teosófica, 1999); Annie Besant, O Cristianismo Esotérico, op.cit.; C.W. Leadbeater, A Gnose Cristã, op.cit.; Alice A. Bailey, From Bethehem to Calvary, The Initiations of Jesus (N.Y.: Lucis, 1981); Rudolf Steiner, From Jesus to Christ (Sussex, Inglaterra: Rudolf Steiner Press, 1991). [4] É interessante notar que, em hebraico, herodes quer dizer ‘um terror’, talvez derivado da palavra egípcia “heru”, aterrorizar. [5] Pistis Sophia, op.cit., pg. 93-95. [6] Alguns autores sugerem que os doze apóstolos representam os doze signos do zodíaco. Gaskell, um estudioso da simbologia esotérica propõe a seguinte correspondência: Pedro – a mente analítica inferior; André – fé e investigação; Tiago – esperança e progresso; João – amor e filosofia; Felipe – coragem e determinação; Bartolomeu – perseverança; Tomé – busca intelectual da verdade; Tiago Alfeu – modéstia e receptividade; Simão Zelote – gentileza e atenção; Judas, irmão de Tiago; mente aberta; Mateus – deliberação crítica; Judas – prudência. (vide G.A. Gaskell, Dictionary of the Sacred Language of all Scriptures and Myths (Londres: G. Allan & Unwin). [7] Vide G. Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 41. [8]Vide A Gnose Cristã, op.cit., pg. 125-131. [9] Vide The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 263-64. [10] Vide, para mais informações, C.W. Leadbeater, Os Mestres e a Senda (S.P.: Pensamento) [11]Vide Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 150. [12] As cinco etapas apresentadas a seguir foram resumidas do livro de Evelyn Underhill, Mysticism, op.cit., pg. 169-70.